Que triste ser um curso de água,
sem significado algum nem grandeza,
sem foz nem nascente,
nem montante nem jusante.
Apenas um riacho, ou menos que isso,
um mísero regato sem leito
que se esfuma a meio do percurso
por não ter onde cair morto.
Que triste correr em águas paradas,
que não aquecem nem arrefecem
e não desbravam nunca serra nenhuma.
Apenas um serandar sem sentido nem fé,
sem peixes nem penedos,
nem vida de espécie alguma.
Uma pasmaceira só, que respira por respirar,
sem dar nunca valor ao ar
que já não corre à sua volta.
Que triste ser um regato
que não é afluente de ninguém
nem tem espaço nos mapas
ou vales que o abracem.
É como ser orfão sem ter perdido os pais.
Como ser pai sem ter tido nunca um filho.
Como existir sem nunca ser de verdade.
Como pensar, sem concluir coisa nenhuma.
Zéphyro 21-04-2015
terça-feira, 21 de abril de 2015
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Pequeno almoço na cama
O meu amor, adora um croissant quente
todos os dias ao acordar.
Isso e uma taça de morangos,
que segura pela rama enquanto suga
a polpa e morde a carne crua do fruto.
Todos os dias fico a vê-la comer,
lambendo inocentemente as migalhas tímidas
que teimam em segurar-se nos cantos da sua boca.
Fico a vê-la mordiscar com prazer
cada pedaço do que lhe levo na bandeja.
No final, sirvo-lhe sempre um café,
puro e forte que lhe carrega
de energia o corpo para mais uma jornada.
O meu amor, lambuza-se sempre na cama,
despojada de cobertas e lençóis,
desnudada de vestimentas excessivamente quentes.
Nunca falo enquanto ela rebola
no sustento que lhe sirvo com gosto.
Temo interromper-lhe os pensamentos
e roubar-lhe a sofreguidão com que esmiúça
em pequenos pedaços o pastel francês.
Pequenos pedaços que mastiga
enquanto me olha nos olhos,
com olhos de quem come e chora por mais.
O meu amor, toma sempre o pequeno almoço
na cama onde sonhou a noite inteira,
segura na servidão dos meus braços.
Zéphyro 17-04-2015
todos os dias ao acordar.
Isso e uma taça de morangos,
que segura pela rama enquanto suga
a polpa e morde a carne crua do fruto.
Todos os dias fico a vê-la comer,
lambendo inocentemente as migalhas tímidas
que teimam em segurar-se nos cantos da sua boca.
Fico a vê-la mordiscar com prazer
cada pedaço do que lhe levo na bandeja.
No final, sirvo-lhe sempre um café,
puro e forte que lhe carrega
de energia o corpo para mais uma jornada.
O meu amor, lambuza-se sempre na cama,
despojada de cobertas e lençóis,
desnudada de vestimentas excessivamente quentes.
Nunca falo enquanto ela rebola
no sustento que lhe sirvo com gosto.
Temo interromper-lhe os pensamentos
e roubar-lhe a sofreguidão com que esmiúça
em pequenos pedaços o pastel francês.
Pequenos pedaços que mastiga
enquanto me olha nos olhos,
com olhos de quem come e chora por mais.
O meu amor, toma sempre o pequeno almoço
na cama onde sonhou a noite inteira,
segura na servidão dos meus braços.
Zéphyro 17-04-2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Cada vez mais bonita
Não sei como não te perseguem
os homens na rua, até à porta de casa.
Já te conheço há mais de meia vida
e estás cada vez mais bonita.
O céu, cada noite está mais escuro
e apagado de estrelas
e esburacada está a atmosfera
que não filtra a luz do sol
que nos mata todos os dias um pedaço.
Antes era bom o sol, agora faz doer.
Tu não, estás cada vez mais bonita
e cada dia mais quente do que ontem.
Nem sei como não rezam a ti nos templos
se há outros deuses e deusas
bem mais feias e bajuladas por homens e mulheres
e velhos e crianças de toda a parte.
Já metade da minha eternidade fugiu,
por entre as nesgas dos meus dedos
que ergo alto nas mãos com que te faço vénias
e tu, cada vez estás mais bonita.
Ao contrário do que dizem,
muito bons vinhos dão em vinagre a seu tempo,
capazes de embaraçar outros tantos Dionísios por aí.
Muitas almas emburrecem com a idade,
perdendo nas rugas de aventesma a sabedoria
de outrora, quando de noite ainda era cedo.
Tu não envelheces, ou pouco se nota.
E não é da minha vista que tenho todo o alcance ainda.
Simplesmente a idade, não tem tarimba suficiente
para te fazer viajar com ela.
Cada dia que passa, estás mais bonita
e eu mais grato de poder chamar-te minha.
Nem sei, honestamente, como só de te ver passar
não se ajoelham as árvores dos parques
envergonhadas pela falta de exuberância
das suas folhagens quando comparadas a ti.
Já caminho ao teu lado há meio mundo
e não te vi perder ainda réstia de graça,
não te vi deixar para trás, nas lamas,
nenhum passo deselegante ou desordenado.
Tudo em ti é sintonia
e tudo em ti é sinfonia
que não canso de escutar, todos os dias,
logo pela manhã e antes de deitar.
Tudo em ti é simbiose
e tudo em ti é metamorfose,
brotando do casulo de seda.
Que sorte tenho eu de poder assistir
ao teu bailado de borboleta colorida,
que esvoaça por toda a parte
mas poisa sempre nas minhas pétalas desbotadas.
Não sei como é possível alguém viver sem ti
e chamar belo ao que quer que seja que o rodeie.
Já abracei mais de meia morte
e tu cada vez mais viva,
cada vez mais bonita.
Zéphyro 16-04-2015
os homens na rua, até à porta de casa.
Já te conheço há mais de meia vida
e estás cada vez mais bonita.
O céu, cada noite está mais escuro
e apagado de estrelas
e esburacada está a atmosfera
que não filtra a luz do sol
que nos mata todos os dias um pedaço.
Antes era bom o sol, agora faz doer.
Tu não, estás cada vez mais bonita
e cada dia mais quente do que ontem.
Nem sei como não rezam a ti nos templos
se há outros deuses e deusas
bem mais feias e bajuladas por homens e mulheres
e velhos e crianças de toda a parte.
Já metade da minha eternidade fugiu,
por entre as nesgas dos meus dedos
que ergo alto nas mãos com que te faço vénias
e tu, cada vez estás mais bonita.
Ao contrário do que dizem,
muito bons vinhos dão em vinagre a seu tempo,
capazes de embaraçar outros tantos Dionísios por aí.
Muitas almas emburrecem com a idade,
perdendo nas rugas de aventesma a sabedoria
de outrora, quando de noite ainda era cedo.
Tu não envelheces, ou pouco se nota.
E não é da minha vista que tenho todo o alcance ainda.
Simplesmente a idade, não tem tarimba suficiente
para te fazer viajar com ela.
Cada dia que passa, estás mais bonita
e eu mais grato de poder chamar-te minha.
Nem sei, honestamente, como só de te ver passar
não se ajoelham as árvores dos parques
envergonhadas pela falta de exuberância
das suas folhagens quando comparadas a ti.
Já caminho ao teu lado há meio mundo
e não te vi perder ainda réstia de graça,
não te vi deixar para trás, nas lamas,
nenhum passo deselegante ou desordenado.
Tudo em ti é sintonia
e tudo em ti é sinfonia
que não canso de escutar, todos os dias,
logo pela manhã e antes de deitar.
Tudo em ti é simbiose
e tudo em ti é metamorfose,
brotando do casulo de seda.
Que sorte tenho eu de poder assistir
ao teu bailado de borboleta colorida,
que esvoaça por toda a parte
mas poisa sempre nas minhas pétalas desbotadas.
Não sei como é possível alguém viver sem ti
e chamar belo ao que quer que seja que o rodeie.
Já abracei mais de meia morte
e tu cada vez mais viva,
cada vez mais bonita.
Zéphyro 16-04-2015
sábado, 11 de abril de 2015
O meu melhor amigo
O meu melhor amigo,
recebe-me sempre com o mesmo sorriso franco
a cada vez que regresso à aldeia.
Não lhe interessa se tenho dinheiro
ou como me corre o negócio na cidade.
Mal me avista, ao longe, o carro
todo ele se torna braços abertos,
num abraço tão acessível e sincero
que chega a ser mais santo que o do cristo rei de Almada.
O meu melhor amigo,
passa os dias no café,
com outros amigos de alguém
que aguardam pelos regressos.
Enquanto aguardam, partilham a esperança
que é quase tudo quanto têm que partilhar.
Porque será que só os pobres
parecem prontos para a igualdade?
Os verdadeiramente pobres,
que nem chegam a ser donos de condomínio,
dividem uns pelos outros os cigarros,
enrolados pela mão de algum deles,
espalhados na mesa como que a convite.
Alternam a voz que pede as rodadas,
que nenhum acaba por pagar.
Ainda assim o taberneiro,
também um pobre da aldeia,
lhes serve o refresco sem exigências.
O meu melhor amigo,
levanta-se sempre da mesa do café
mal avista, ao longe, o meu carro
a fazer tempestade das terras soltas
que enchem as curvas da estrada.
Quando saio do carro numa nuvem de poeira
é dele o primeiro rosto feliz que vejo.
É dele a primeira voz que ouço
a abençoar-me o regresso.
Porque será que só os pobres ficam felizes,
com o regresso de um rico à aldeia?
Talvez vejam nele o triunfo,
que teriam, eles mesmo, alcançado,
caso se tivessem dado ao trabalho
de vazar umas quantas vistas na escalada.
O meu melhor amigo,
não vazou nunca vista nenhuma.
Apenas, talvez, a sua
a cada vez que tenho de voltar
para a cidade depois do feriado.
Nesses dias, fica sempre a ver-me,
enquanto, ao longe, o carro se torna
num ponto cada vez mais difuso no horizonte.
Eu raramente o vejo acenar-me,
escondido que fica no pó esvoaçante
mas tenho sempre a certeza que ele lá está.
Que só tornará a sentar-se na mesa de café
após eu estar já longe da vista,
para retomar os jogos de cartas
e pedir mais uma rodada para todos
que agora é a sua vez
e bem precisa do aconchego de uma bebida.
O meu melhor amigo,
só retoma com a vida quando estou longe da vista,
mas sei que não chego nunca
a despovoar-lhe o coração,
nos tempos mortos que vai contando da mesa da taberna.
Zéphyro 11-04-2015
recebe-me sempre com o mesmo sorriso franco
a cada vez que regresso à aldeia.
Não lhe interessa se tenho dinheiro
ou como me corre o negócio na cidade.
Mal me avista, ao longe, o carro
todo ele se torna braços abertos,
num abraço tão acessível e sincero
que chega a ser mais santo que o do cristo rei de Almada.
O meu melhor amigo,
passa os dias no café,
com outros amigos de alguém
que aguardam pelos regressos.
Enquanto aguardam, partilham a esperança
que é quase tudo quanto têm que partilhar.
Porque será que só os pobres
parecem prontos para a igualdade?
Os verdadeiramente pobres,
que nem chegam a ser donos de condomínio,
dividem uns pelos outros os cigarros,
enrolados pela mão de algum deles,
espalhados na mesa como que a convite.
Alternam a voz que pede as rodadas,
que nenhum acaba por pagar.
Ainda assim o taberneiro,
também um pobre da aldeia,
lhes serve o refresco sem exigências.
O meu melhor amigo,
levanta-se sempre da mesa do café
mal avista, ao longe, o meu carro
a fazer tempestade das terras soltas
que enchem as curvas da estrada.
Quando saio do carro numa nuvem de poeira
é dele o primeiro rosto feliz que vejo.
É dele a primeira voz que ouço
a abençoar-me o regresso.
Porque será que só os pobres ficam felizes,
com o regresso de um rico à aldeia?
Talvez vejam nele o triunfo,
que teriam, eles mesmo, alcançado,
caso se tivessem dado ao trabalho
de vazar umas quantas vistas na escalada.
O meu melhor amigo,
não vazou nunca vista nenhuma.
Apenas, talvez, a sua
a cada vez que tenho de voltar
para a cidade depois do feriado.
Nesses dias, fica sempre a ver-me,
enquanto, ao longe, o carro se torna
num ponto cada vez mais difuso no horizonte.
Eu raramente o vejo acenar-me,
escondido que fica no pó esvoaçante
mas tenho sempre a certeza que ele lá está.
Que só tornará a sentar-se na mesa de café
após eu estar já longe da vista,
para retomar os jogos de cartas
e pedir mais uma rodada para todos
que agora é a sua vez
e bem precisa do aconchego de uma bebida.
O meu melhor amigo,
só retoma com a vida quando estou longe da vista,
mas sei que não chego nunca
a despovoar-lhe o coração,
nos tempos mortos que vai contando da mesa da taberna.
Zéphyro 11-04-2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
O negro das ardósias
Tenho na alma o negro das ardósias
vazias, onde nunca se escreveu lição.
O negro das ardósias que arrelia
com um silvo que arrepia
ao esgravatar das unhas alheias ao que sou.
Sou por dentro uma sala de aula antiga,
desprovida de alunos e professora
que partiram já para escolas mais modernas.
Só cadeiras anafadas e carteiras de madeira
com sulcos, vazios de esferográficas.
Um mapa dos rios e províncias meio rasgado,
na parede amarelecida pela humidade
e as tabelas da tabuada penduradas na porta
com uma tacha ferrugenta
que não caiu por não ter chão.
Na alma, tenho o negro das ardósias,
onde nenhuma data está marcada
e onde ninguém escreveu sumário.
Apenas espaço livre para a sabedoria
que nunca chega a estas bandas
onde já não há ninguém
que dê cor ao entulho rude e negro
que tenho dentro de mim.
O negro das ardósias
onde nunca ninguém aprendeu nada
ou teve ensejo de ensinar.
Apenas o pó deixado pela falta de uso,
o apagador pendurado na lombada
e dois paus de giz por estrear.
Zéphyro 10-04-2015
quarta-feira, 8 de abril de 2015
As mechas de Sansão
Sansão era forte como um touro,
ou até dois, que dificilmente um touro,
derrotaria sozinho um exército de fariseus,
munido apenas de uma queixada de jumento.
Os seus braços eram arietes nas muralhas inimigas,
as suas pernas, eram troncos que marravam o solo
com a força de uma tormenta.
Mas a maior das suas forças era o seu cabelo,
longo e crespo como crina de um cavalo andaluz.
E eu? Que será de mim calvo que fiquei,
ainda na cara tinha as marcas do acne?
Que Dalila quererá trair-me
e cortar durante o sono
a força bruta que não tenho na cabeça?
Quem poderia derrotar eu sozinho
se nem um touro chego a valer?
Sansão valia dois, ou mais até!
E tinha mechas só comparáveis em beleza
com o ouro dos cabelos da Rapunzel.
Eu, estou praticamente careca.
Um ou outro tufo de lado,
por cima das orelhas, mas nem chego a parecer gente.
Assemelho-me mais a um dente-de-leão soprado pelo vento.
Como sobreviverei na selva dos dias
por onde passo sem bater em ninguém?
Como queria eu um punhal bem espetado nas costas
e acordar sem forças numa destas manhãs.
Que belo seria recupera-las mais tarde
para fazer ruir um coliseu qualquer
cheio de gente e apupos, mesmo estando careca...
Zéphyro 08-04-2015
ou até dois, que dificilmente um touro,
derrotaria sozinho um exército de fariseus,
munido apenas de uma queixada de jumento.
Os seus braços eram arietes nas muralhas inimigas,
as suas pernas, eram troncos que marravam o solo
com a força de uma tormenta.
Mas a maior das suas forças era o seu cabelo,
longo e crespo como crina de um cavalo andaluz.
E eu? Que será de mim calvo que fiquei,
ainda na cara tinha as marcas do acne?
Que Dalila quererá trair-me
e cortar durante o sono
a força bruta que não tenho na cabeça?
Quem poderia derrotar eu sozinho
se nem um touro chego a valer?
Sansão valia dois, ou mais até!
E tinha mechas só comparáveis em beleza
com o ouro dos cabelos da Rapunzel.
Eu, estou praticamente careca.
Um ou outro tufo de lado,
por cima das orelhas, mas nem chego a parecer gente.
Assemelho-me mais a um dente-de-leão soprado pelo vento.
Como sobreviverei na selva dos dias
por onde passo sem bater em ninguém?
Como queria eu um punhal bem espetado nas costas
e acordar sem forças numa destas manhãs.
Que belo seria recupera-las mais tarde
para fazer ruir um coliseu qualquer
cheio de gente e apupos, mesmo estando careca...
Zéphyro 08-04-2015
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