sexta-feira, 10 de abril de 2015

O negro das ardósias


Tenho na alma o negro das ardósias
vazias, onde nunca se escreveu lição.
O negro das ardósias que arrelia
com um silvo que arrepia
ao esgravatar das unhas alheias ao que sou.
Sou por dentro uma sala de aula antiga,
desprovida de alunos e professora
que partiram já para escolas mais modernas.
Só cadeiras anafadas e carteiras de madeira
com sulcos, vazios de esferográficas.
Um mapa dos rios e províncias meio rasgado,
na parede amarelecida pela humidade
e as tabelas da tabuada penduradas na porta
com uma tacha ferrugenta
que não caiu por não ter chão.
Na alma, tenho o negro das ardósias,
onde nenhuma data está marcada
e onde ninguém escreveu sumário.
Apenas espaço livre para a sabedoria
que nunca chega a estas bandas
onde já não há ninguém
que dê cor ao entulho rude e negro
que tenho dentro de mim.
O negro das ardósias
onde nunca ninguém aprendeu nada
ou teve ensejo de ensinar.
Apenas o pó deixado pela falta de uso,
o apagador pendurado na lombada
e dois paus de giz por estrear.


Zéphyro   10-04-2015

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