O meu melhor amigo,
recebe-me sempre com o mesmo sorriso franco
a cada vez que regresso à aldeia.
Não lhe interessa se tenho dinheiro
ou como me corre o negócio na cidade.
Mal me avista, ao longe, o carro
todo ele se torna braços abertos,
num abraço tão acessível e sincero
que chega a ser mais santo que o do cristo rei de Almada.
O meu melhor amigo,
passa os dias no café,
com outros amigos de alguém
que aguardam pelos regressos.
Enquanto aguardam, partilham a esperança
que é quase tudo quanto têm que partilhar.
Porque será que só os pobres
parecem prontos para a igualdade?
Os verdadeiramente pobres,
que nem chegam a ser donos de condomínio,
dividem uns pelos outros os cigarros,
enrolados pela mão de algum deles,
espalhados na mesa como que a convite.
Alternam a voz que pede as rodadas,
que nenhum acaba por pagar.
Ainda assim o taberneiro,
também um pobre da aldeia,
lhes serve o refresco sem exigências.
O meu melhor amigo,
levanta-se sempre da mesa do café
mal avista, ao longe, o meu carro
a fazer tempestade das terras soltas
que enchem as curvas da estrada.
Quando saio do carro numa nuvem de poeira
é dele o primeiro rosto feliz que vejo.
É dele a primeira voz que ouço
a abençoar-me o regresso.
Porque será que só os pobres ficam felizes,
com o regresso de um rico à aldeia?
Talvez vejam nele o triunfo,
que teriam, eles mesmo, alcançado,
caso se tivessem dado ao trabalho
de vazar umas quantas vistas na escalada.
O meu melhor amigo,
não vazou nunca vista nenhuma.
Apenas, talvez, a sua
a cada vez que tenho de voltar
para a cidade depois do feriado.
Nesses dias, fica sempre a ver-me,
enquanto, ao longe, o carro se torna
num ponto cada vez mais difuso no horizonte.
Eu raramente o vejo acenar-me,
escondido que fica no pó esvoaçante
mas tenho sempre a certeza que ele lá está.
Que só tornará a sentar-se na mesa de café
após eu estar já longe da vista,
para retomar os jogos de cartas
e pedir mais uma rodada para todos
que agora é a sua vez
e bem precisa do aconchego de uma bebida.
O meu melhor amigo,
só retoma com a vida quando estou longe da vista,
mas sei que não chego nunca
a despovoar-lhe o coração,
nos tempos mortos que vai contando da mesa da taberna.
Zéphyro 11-04-2015
Sem comentários:
Enviar um comentário