quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Redundante

Por vezes, até a mim me surpreende
a minha capacidade para fazer asneira.
Como se tivesse uma espécie de mão cósmica,
que me leva a deitar tudo a perder,
sempre no momento mais crucial.
Se não tivesse ainda aprendido o suficiente...
Mas já vezes sem conta estudei desta cartilha.
Já inúmeras horas passei sentado,
em frente a esta grande roda viva.
Devia esse tempo ter-me educado.
Como chama que queima a pele
e inibe futuras veleidades.
Devia esse tempo ter sido frutífero,
levando-me a crescer como individuo social
e a rejeitar de vez o facilitismo.
Não! Teimo em voltar sempre atrás,
para cometer cada erro pela primeira vez.
Novamente, vezes sem conta.
Chego á conclusão que vivo numa espécie de loop,
um qualquer universo paralelo e redundante
que me leva sempre de um lapso para o seguinte.
de uma má opção para uma pior ainda.
De uma provação para um inferno real.
Porque será que sempre borrato a pintura
quando está ela tão próxima dos acabamentos?
Porque teimo em manter-me no atalho
que me leva invariavelmente a andar em circúlos?
Serei desorientado por natureza?
Ou apenas naturalmente perdido
e próximo da perdição?
Cansa este caminho... este percurso,
feito a paredes meias com a responsabilização,
a punição e a culpa.
Cansa esta viver nocivo
que vai roendo os alicerces
de tudo que tenho em meu redor.
Porque teimo em errar?
Serei uma alma redundante?
Até a mim me surpreendo
caso o não seja.

Zéphyro  30-01-2012

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Instinto

Impera a vontade lá,
no sítio de onde ela vem.
Não há quem resista a levantar um véu
para espreitar com ganas o amanhã.
Lá, todos se têm,
lá, todos se dão.
No sítio de onde ela vem,
já Pandora se libertou da clausura.
Não há embustes ou fingimentos.
Não há acção... reage-se!
Não se come sem ter fome,
e o sono, chega sempre tarde.
Paira no ar um inebriante aroma de carne
quente, consumida, abusada.
Carne que se dá como um livro que se abre
e espalha a nova palavra.
Extinguindo os segredos,
Quebrando as amarras,
libertando bocas amordaçadas,
expiando pecados
e desvirginando dogmas.
Impera a pureza, lá, longe...
... no inferno terno de onde ela vem.
Quem padece, não é esquecido,
não é relembrado nem homenageado, não!
Quem vai, nunca parte realmente.
Quem chega, nunca mais quer partir.
Lá, não há pensadores,
lá não há ideologistas,
lá não há religiões.
Todos acreditam no aqui e no agora,
todos esmeram sentidos e gemidos
sem medo de represálias.
Sem receio de falhar,
ou pressão de vencer.
Lá, na terra onde a vontade ordena,
as pessoas não são gente,
os bichos não são animais.
Todos bebem dos mesmos riachos
e partilham o mesmo céu.
Como se fossem uma só existência,
uma só verdade,
um só desejo,
um impulso, um instinto...

Zéphyro  29-01-2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

Chega!

Não me parece bem viver através de alguém.
Como se precisasse de um escudo
e a vida fosse uma batalha medieval.
Não concordo que se ria pelos outros.
Como se não pudessem entender sozinhos
as graças que a vida faz...
Já tive o suficiente.
Já me aninhei em muitas trincheiras.
Já me culpei por diversas vitórias.
Já me esvaí em sangue de outrém.
Chega!
Não suporto os sonhos dos outros.
Como se não bastasse ter de lidar com os meus pesadelos.
Que não me deixam acordar ou viver.
Não entendo porque lutam.
Como se o prémio tivesse sentido
ou valesse o sacrifício...
Já há muito desisti dessas quimeras.
Já é tarde para acreditar
Ou fazer com que me acreditem.
Já é tempo de seguir caminho.
Chega!
Não me parece bem a vida.
Mas pior é não viver.

Zéphyro 26-01-2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Quando a musica acaba...

Ouço os gemidos entoarem pelas paredes de mim...
Vibro ondulante ao som de pequenos ragos e esgares
de dor incerta, de revolta contida, de caos interior...
Borboletas pousam e tremelicam
em flores de agonia, sonhos perdidos e devaneio.
Como se ficasse mais forte uma luz que se afasta,
como se nos preenchesse as mãos
a areia que nos escorre entre os dedos.
Um quase mundo, vivido para a frente,
mas que gira no sentido inverso.
Os gemidos são agora pedras
que marcham na nossa direcção
a um ritmo que altera, que nos altera.
Da placidez quase rotineira
saltamos à fúria descontrolada,
passamos à exigência, à demanda, ao orgulho...
Suspenso!
Rebenta agora em mil suplicas, mil lamentos
o que tinha sido contido no peito.
No peito hediondo que reclama pela mãe natureza que, perdida, não chora os seus ais.
Um quase rogar a alguém divino, alguém mais forte, alguém mais certo...
Um alguém que não falha mas, ao mesmo tempo,
um alguém que nunca veio, que sempre faltou.
Ouço os gritos psicadélicos,
quais premonições do apocalípse
e deixo-me levar até á consternação.
Até ao momento em que entrego as armas,
em que abandonamos a luta
e entramos na paz da desistência.
O momento em que olhamos em redor
e não está mais ninguém,
que nos sustente, que nos deseje...
Pairo até ao fim, embalado pela certeza
de que a música, me acompanhará na jornada.
Só a música.

Zéphyro 25-01-2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Esquece-me Ó eu!

Se me cruzares um dia, na rua,
muda, por favor, o rumo
como se desconhecesses quem sou.
Dispenso ver nas paredes do passado,
os esgares que eu já fui.
Se te paira na mente o meu nome,
esquece, rogo-te eu, os traços do meu rosto,
como se eu fosse alguém distante.
Assusta-me o medo que sinto,
por tudo que te dei um dia.
Se me queres, não me chames, não irei
ao teu encontro, como em muitas outras luas.
Não que não te queira eu também,
na sub-pele dos meus delírios...
Apenas não suporto mais
o meu nome na tua boca.
Essa boca que fala as minhas palavras,
que geme os meus gemidos,
que sente as minhas dores e beija os meus beijos.
Não, não me chames mais.
Já te fui, não o sou mais.
Tornei-me outro, já não sou meu.
E, se me cruzares um dia
não te esqueças, nem me esqueças.
Se me vês, é por seres quem sou.
Um alguém em mutação que não será meu amanhã.

Zéphyro 23-01-2013

Chuva

Chuva leva, chuva lava,
chuva ensopa os meus desejos.
Devolve ao céu a esperança pura
de um sol que se esconde algures.
Como se mandasses tu Ó chuva,
fosses tu topógrafa dos meus passos...
... que arrastados até ao nada se perderam no caminho.
Chuva limpa, chuva e lama,
na terra estampando o meu rumo.
Como pegada, como uma pista deixada para trás.
Como se soubesses já Ó chuva,
os truques que reserva a estrada,
os atalhos e os engodos...
... onde sempre preguiço e tropeço.
Sabes-me vil e ainda não descobri?
Sabes-me nu aos olhos do mundo,
sem que me tenha dado a mim mesmo?
Chuva pura, chuva pára,
de assombrar os meus ensejos.
Devolve aos corpos o aroma
devolve a areia, o mar e o céu!
Levaste sem pedir o calor dos abraços.
Como se fosses deus Ó chuva,
e jogasses a sorte com o meu alento.
Fosses tu jurada, na causa dos meus dias...
... fosse eu o réu ou vítima deambulando a teu prazer.
Existes mesmo ou estás em mim?
Chuva és tu, chuva sou eu.

Zéphyro 23-01-2013

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Ode ao luar que és na minha vida

Levantei-me pela noite e gritei à lua.
Gritei à lua o meu transe, bradei-lhe os meus suspiros.
Falei-lhe das mágoas que me deram alento
e das fantasias que me consomem o corpo.
Como as chamas de um fogo...
...a lamber as paredes de uma fachada enegrecida.
O silêncio acordou-me esta noite.
Ou terá sido noutra qualquer?
Tu chamaste por mim, nua.
Ou terei sido eu a desejar-te?
Esperei sempre por ti, sempre por este Agora!
Ou terás sido tu a seguir-me, desde o nada de onde vim?
Serei eu o alguém que esperas?
Ou será o meu corpo mais um mero vício teu?
Algo que sorves e te inebria?
Levantei-me pela noite.
A lua, havia fugido, no vazio escuro da noite.
Gritei, bradei aos quatro ventos...
... e a resposta eras tu!
Na forma de gotas do suor apaixonado,
Que languidamente me escorre pelas costas.
Sentes amor, quente e terna a nossa carne?
Sentes minha lua, o escuro das minhas noites?
Anda, vem a mim, calma, quente, misteriosa.
Hei-de sempre sucumbir ao orgulho dos teus passos.


Zéphyro
22/01/2013