Nas dobras dos meus dedos,
nas palmas da minhas mãos,
há calos que falam sobre tudo.
Porém, o tudo em que toquei, um dia,
é tão nada como aquilo que jamais vi.
Nacos de memória, agarrados ao cérebro,
como chiclet que se gruda na sola de um sapato.
Debaixo de um tapete, uma nuvém de pó,
uma bola de sarilho que alguém varreu
e escondeu, como tudo o que estorva.
Mas o pó, é nada!
E o nada estorva, porque nunca o detectamos
no meio da amalgama do que julgamos ser o pleno,
do que tomamos como real e palpável.
Nos escombros de um couraçado,
no convés feito sucata pelo tempo
e no tempo, roubado à socapa pelos dias,
que nada deixaram para trás.
Na nudez de uma folha em branco,
no caule ressequido daquilo que já foi flor
e que desengraçou com o passar da estação.
O nada está em toda a parte.
Como o único deus que existe,
mesmo que, banhados pela cegueira,
nos obriguemos a não crer nele.
A vida é nada!
A morte é nada!
Tudo é nada!
Eu sou nada!
E tu e vós e tudo o que vos rodeia,
são tão nada como tudo o resto.
Desprovidos de sentido,
iludidos com o livre arbítrio
que o nada vos deu de presente,
como um mágico que tira da cartola um coelho,
ou deixa que duas pombas surjam,
esvoaçando por debaixo de uma capa negra.
Na minha voz rouca,
meia presa na garganta de peles descaídas.
Na minha mão trémula e incerta,
de veias que já não latejam,
vazias de sangue que já não corre.
Aí está o nada e toda a sua minúcia.
Astuto como um puto de rua que se fez a si mesmo,
mascarando-se de tudo para nos ludibriar a vista.
Zéphyro 13-01-2016
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