segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Rei vai nu

Sonhei-me num sonho de verão,
senhor de todas as coisas,
dono de todas as praias
e rei de todas as ninfas.
Sonhei-me acordado e ao meu lado,
um criado mudo não tão mudo
quanto eu desejava que fosse.
Um criado, com gavetas e, nas gavetas,
um fundo falso escondido,
onde estão reféns todos os segredos
sórdidos e surdos que me fazem majestade.
Sonhei-me num sonho de verão,
nu e transpirado, cheio de areia
colada em grãos aos detalhes do meu corpo,
não tão firme, não tão duro,
que os sonhos raramente se deixam agarrar.
Caminhei no chão do sonho,
caminhei horas e gelei os pés
nas águas que, se escolhesse, estariam cálidas
como os beijos de uma boca maravilhada.
Mas não escolho e vou nu
e as águas são frias e escuras demais
para uma tarde de verão.
As rochas são sujas e a areia preta
e as algas roubam do ar à descarada
o perfume de ti, nua no meu encalço.
- O Rei vai nu! Dizes...
E eu, deixo que digas,
pois no sonho em que me sonhei,
sou realmente rei e vou nu na realidade.


Zéphyro  03-08-2015

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