sexta-feira, 31 de julho de 2015

Será que vais ouvir-me?

Um poema, se for bem recitado,
ouve-se sempre no céu.
A voz funde-se com o tempo,
quando entoa sentimentos sublimes,
ocupa os espaços vazios do próprio espaço
e só pára em mãos celestes.
Só se detém se acompanhada
por harpas dedilhadas
e pequenas pancadas secas de xilofone.
Um poema, quando lido com alma,
ouve-se alto em toda a eternidade,
durante todo o universo.
Quando me recitarem, irás ouvir-me mãe?
Terás orgulho em mim
e verterás lágrimas de emoção
tocada pelas minhas palavras,
que disse e pensei sem estares cá para ouvir?
Quando se recita um poema,
passa a crer-se na metafísica.
Sincroniza-se a respiração com toda a existência
e o mundo passa a ser um só.
Dançando ondulantemente ao som
das mesmas palavras, proferidas
na linguagem universal da arte.
Será que vais entender o meu propósito, mãe?
Mesmo quando nem eu sempre me entendo
a mim mesmo e ainda menos ao que escrevi
e pensei sem estares cá para ouvir?
Um poema, bem recitado,
chega sempre ao céu, aos anjos
e ao próprio deus.
Mas o poeta, é matéria do inferno.
O poeta acaba sempre em cavaqueira
com o diabo, sem harpas nem xilofones.
Será que me ouves, mãe?
Será que me ouves e te orgulhas
antes de eu chegar lá abaixo?

Zéphyro  31-07-2015

Sem comentários:

Enviar um comentário