O tempo começou ontem,
quando poisaste, trazida pela brisa,
na palma da minha mão aberta.
Vinhas com os dentes de leão,
com as nuvens
e com a tempestade que se fazia adivinhar,
lá longe onde o mar se esconde.
Pulsei pela primeira vez.
vibrei com toque dos teus cabelos
no meu dedo ferido,
de apontar sem esperança o espaço
que nunca ocuparia sem ti.
Ouvi ao longe os gritos da faina,
os gemidos das gaivotas, sem consolo.
Como se fossem pregões, anúncios
antecipando a tua chegada.
Hoje, passa já uma eternidade desde ontem.
Hoje, não cabes já na palma da minha mão.
Ocupas todo o meu ser,
como se sempre tivesses cá estado.
Estás-me na roupa, como o perfume que uso.
Estás-me nos pés, como a estrada que piso.
És-me, fazes de mim melhor ao sê-lo
e já ocupaste o lugar dos meus antepassados.
Tudo que conheço, descende de ti.
Como se houvesse uma genética comum
a todos que por ti se enamoram.
Não há atmosfera sem que voes!
Não há música sem que fales!
Até as varinas, velhas e teimosas
de canastra na cabeça
são uma orquestra que diriges
Brandindo-me dia fora como uma batuta.
Não há artesão, bandido ou herói
que não te tenha na ponta dos dedos
ou na máscara do anonimato.
Quem me dera ser demente!
Quem de dera estar louco!
Sem terapia, apenas tu.
Sem sucesso, apenas tu.
Quero sentir um dejá vu eterno.
Sincronizar o meu pulso com o teu
e saber-nos distintos, como um só.
Zéphyro 09-06-2104
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