segunda-feira, 9 de junho de 2014

Salto da falésia

Não podia assustar-me mais o salto da falésia.
Ter os pés cravados no limite do abismo
e sentir o vento revolto
a afagar-me os cabelos,
enquanto a sua mão, fria,
tenta precipitar-me, lá no fundo
da garganta azul e mordaz que me chama.
Como podia adivinhar que, cá em cima,
tudo era tão melindroso,
tudo era tão ventoso,
tudo se agigantava?
Têm-me falado maravilhas deste miradouro.
Que é o pódio dos triunfantes da azáfama,
que é o pedestal dos santos que pecam,
que é o altar, de quem foi rei por um dia.
Como podia eu saber, que, sem que me empurrem,
não verei o meu corpo combalido
arremessado no vazio de um sonho?
Cuidei que seria a vontade própria
a apropriar-se da minha própria vontade.
Julguei-me uma moeda,
daquelas que a superstição
atira aos lagos e fontes.
Mas já não sei onde para a minha sorte.
Pensei trazer fortuna ao meu futuro,
mas é tão assustador o barulho que se ouve aqui.
E o caminho de volta para baixo,
quem me ensina?
Jamais poderei descer por onde subi
e o salto... assusta-me como gritos que oiço
vindos lá do horizonte
para onde me falta a coragem de rumar.
Como sabe ele o meu nome?
Quem lhe terá dito, que é hoje o dia?
Que reservei hoje lugar para a viagem
que me recuso agora a iniciar?
Que vá vazio o meu assento!
Ah, como queria eu voltar atrás,
ou ter os fígados para ir em frente.
Mas é tão alto o pesadelo desta encosta,
tão sinuoso o piso da falésia,
recortado pelos sopros do martírio,
pelo vento denso
que só quer martirizar-me.
 
 
 
Zéphyro 06-06-2014

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