sábado, 24 de fevereiro de 2018

A cantilena

Que arrojados sentimentos sentiam os finados?
Que amores amavam eles com louvores desesperados?
Um ribombar de oceano a esmagar o frágil cais...


Que musas os mantinham inspirados?
De que fome eram tão bem alimentados,
para chegarem a cumes tão elavados
e se destacarem tanto dos demais?


A arte não cabia em nenhuma algibeira.
Vinha das ruas, vinha da dor verdadeira
Da vida dura, da vida real, da vida plena.


Agora, vem da falsidade e da emoção curriqueira.
Está à venda, em qualquer loja ou qualquer feira
e se antes, cada canção era uma bandeira,
agora nem chega a ser canção, é apenas cantilena.


Que escutavas tu Amália no teu tempo?
como tinhas na voz e na alma tantos sentimentos?
Um furacão e um vulcão, numa tulipa encarcerados...


Que traições te provocaram tal pranto?
Que deus tão grande te deu assim o teu canto,
que negro véu foi o teu manto
e como foi que tanta dor valeu a pena?


Quando cantavas, soava sempre a divino
e em cada verso teu, cabia todo um hino.
Quem ficou por cá, não vale mais que uma cantilena.


Por que janelas via o mundo Chopin?
Como pode um louco, manter a mente sã?
Como pode esconder-se a solidão em mão tão amena?


Como pode nenhuma experiência ser vã?
Como pode o ontem, saber já o amanhã
Agora já nem o hoje chega lá
e mataram a sonata para dar vida à cantilena.


De que luxúrias viviam os falecidos?
Qual era o seu preço para serem vendidos?
E como era garantido que os ouviam em toda a parte?


Não havia luxo, vinham dos sonhos perdidos.
Só cobravam a oportunidade de serem ouvidos
e de verem os seus desejos atendidos.
Nada mais valia mais que a arte.


Sublime hoje em dia só o cifrão
que ninguém se aguenta só de pão
e o sonho pode ser grande, mas alma é pequena.


Não lhe cabe, por isso grande emoção,
e mesmo recorrendo ao coração,
quem escreve a cantiga, não a sente canção
e não vai mais longe que a cantilena.




Zéphyro  24-02-2018

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