Nunca conheci nenhum artista.
Nunca tive nenhum amigo cientista,
ou sequer conheci alguém inteligente.
Não sei pintar uma aguarela.
Não conheço nenhuma estrela,
que não seja estrela decadente.
Nada sei de astros ou galáxias.
Não sou dado a esse tipo de audácias
e não destingo um avião de um cometa.
Não tenho nada que seja digno de registo.
Nada do que sei prova que existo,
tudo o que tenho, é a minha silhueta.
Nunca tive na vida um heroi.
Nem Pessoa, nem Camões, Hemingway ou Tolstoi,
seriam capazes de iluminar a minha existência.
Nem sequer aprendi a ler
e com a voz sempre a tremer,
ninguém tem o dom da eloquência.
Nunca quis aprofundar conhecimento,
nem encontrei qualquer contentamento
em ser um homem culto.
Vou passando sem deixar marca,
na vida e no mundo que me aparta
e não me deixa ser mais que um vulto.
Não tive sequer um amigo nesta vida.
Ninguém que me desse um refúgio ou guarida
das vozes que me guiaram ao anonimato.
Aquelas vozes que me chamam e consomem
e me perguntam toda a hora se sou homem,
ou se serei apenas mais um rato.
Nunca fui a uma praia,
nunca vi uma mulher de mini-saia,
nem fui a nenhuma festa de arromba.
Nunca fui sequer convidado,
para ficar ou ir a qualquer lado,
por companhia, tive só a minha sombra.
E é o balanço de uma existência...
Uma espécie de referência,
a toda uma vida gasta e obliterada.
Uma alusão a alguém que nem existiu,
a uma imagem que nunca ninguém viu,
pois ninguém consegue ver o nada.
Zéphyro 24-02-2018
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