sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Caras de Lata

Que viva o eterno carnaval urbano
onde todos escondem os rostos, mais ou menos humanos,
por detrás do latão das máscaras sempre iguais.


Que vivam as fantasias e os enganos
e os dias roubados e profanos,
que teimamos em esconder de todos os demais.


Cruzamos nas ruas com os nossos semelhantes
e tentamos neles ver ainda alguma verdade
através do peso ou leveza dos seus semblantes
e através das rugas, tentamos adivinhar a idade.


Mas a rotina sempre se confunde com o corso,
onde todos mascarados desfilamos mil sorrisos,
tentando fingir a felicidade e até o dinheiro no bolso
que nos livrem da ignorância e dos rótulos de aviso.


Que viva eternamente a mão desengraçada,
que finge dar tudo, sem na verdade dar nada
e que só se estende de palma bem aberta.


Que vivam as costas largas e desamparadas,
que almejam os abraços e acabam apunhaladas,
sozinhas com a culpa, numa rua já deserta.


São só máscaras de lata desde os novos aos mais velhos,
como as nossas de luto não menos enlatado,
que já não temos coragem de olhar no espelho,
com medo que a nossa culpa nos faça sentir culpados.


Que viva o eterno carnaval do ocidente
e as ruas vazias de almas mas a abarrotar de gente
que segue sempre certa os passos do alheio.


Que vivam os caminhos aos quais somos indiferentes,
pois somos melhores que tudo e somos indulgentes
e cruzamos com o destino sem perguntar de onde veio.


As veredas que galgamos sempre são as mais festivas,
néons e estrelas e confettis e serpentinas
dão cor ao monocroma das paletas mais esquivas
que se esquivam da verdade dobrando céleres as esquinas.


Mas do outro lado não encontramos senão falácia.
Nem verdade, nem o júbilo, nem o cerne, nem a nata
que merecemos por direito e pela nossa audácia,
de sorrirmos em sofrimento, cobertos por caras de lata.




Zéphyro  16-02-2018

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