segunda-feira, 5 de março de 2018

Cinco chapas, uma vida...

Foi como o nascer do dia.
Todos apinhados na sacristia,
as ombreiras, os bigodes e as poses dos oitenta.


Todos sorriram para a fotografia,
e todos assistiram junto à pia,
ao primeiro banho do menino, em água benta.


Foi geral o espanto,
quando o menino não desatou em pranto
devido ao frio da água da fé fingida.


Todo ele de branco, enrolado num manto,
ladeado pelo padre e pelas imagens dos santos,
foi o astro da primeira chapa de uma vida.


Depois, mais uma vez o dogma da religião,
desta feita, a primeira comunhão
e de novo a família reunida.


Já mais crescido o moço e fanfarrão,
encarou a lente com ar de provocação,
na segunda chapa da sua vida.


De joelhos, segurava um catecismo,
com um terço na mão e nos olhos todo um sismo,
na forma do escárnio que sentia.


Foi mais um passo na direcção do abismo
e a antecipação do cataclismo,
tudo numa só fotografia.


A terceira foi a mais feliz.
Já homem, sorriu alegremente como um petiz,
olhando para a beleza da sua amada.


Perdeu-se nela e, por um triz,
todo ele senhor do seu nariz,
não se encontrou numa vida recatada.


Foi um entardecer sereno e despojado.
Apenas dois amantes, sentados lado a lado,
de mão dadas e costas voltadas ao vento.


A chapa que mais teve significado,
num céu turquesa, de sol alaranjado,
captou toda a fantasia de um casamento.


Com o tempo, veio então o desalento
da corrida estéril pelo sustento,
numa vida queimada a trabalhar.


Mas o dinheiro, não durava mais que um momento,
ou matava a fome, ou evitava o relento
e tentou uma forma mais fácil de o ganhar.


Era a hora de mudar a vida
e num assalto lucrativo, viu a saída,
só precisava de sorte, só tinha de ser viril.


Mas a sorte, malvada, fez-se de esquecida
e a virilidade, em jeito de despedida,
ficou-se por uma chapa de perfil.


A última chapa que mostra o moço em liberdade,
ainda que tirada por um agente de autoridade,
numa sala escura, suja e precária.


E foi para o cárcere em tão tenra idade...
E o cárcere, roubou-lhe a vontade...
E enforcou-se, numa noite solitária.


Daí para a frente, ao nada tudo se reduz...
Foi-se o som, foi-se o ar, foi-se a luz...
Apenas uma eternidade sufocante, muda e escura.


Mesmo sem crer em deus, levou o moço a cruz,
nunca disse adeus e a última chapa que lhe faz jus,
é um retrato em sépia na sua sepultura.



Zéphyro  05-03-2018

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