segunda-feira, 12 de março de 2018

Já gostei tanto de mim...

Já gostei tanto de mim,
nos tempos em que era mesmo assim
e gostava de toda a gente.


Quando era ainda um benjamim
e gostava de todos só porque sim
e gostava de mim só porque era inocente.


Mas gostava tanto da minha companhia.
De conviver comigo, noite e dia
e contruir os sonhos peça por peça.


Sonhava tanto, mas não sabia
que entretanto acordava e esquecia
e perdia os sonhos na minha cabeça.


Já gostei tanto de mim...
Agora sou a mim mesmo indiferente
como me é indiferente toda a gente.


Só despojos levados pela corrente,
ninguém especial, ninguém inteligente.
Apenas o nada, rumando ao fim.


Não suporto ouvir-me agora
e nem sequer posso sair e ir embora
para outro lugar qualquer.


Vou seguir-me sempre caminho fora
e fazer de mim mesmo uma masmorra
vá onde for e faça o que fizer.


Mas gostava de um pouco de quietude.
Um pouco de silêncio, que nunca desilude
nem tenta falar por cima de ninguém.


Apenas dá ao tempo o espaço que o ajude,
dá ao vazio a vaidade de uma atitude
e permanece calado, escutando sem desdém.


Eu... Já nem espero uma despedida...
Só quero sair de rompante.
Deixar apenas de ser, num instante.


Gostei muito de mim, mas foi dantes,
quando não me sabia um sábio pedante
que acha que sabe tudo na vida.




Zéphyro  12-03-2018

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