terça-feira, 6 de março de 2018

O Algoz

Mal nasceste, foste rejeitado.
Crescer, cresceste, mas foste criado
pelo ódio e pelo desdém.

Não houve como fugir ao teu fado
ainda que ninguém te tenha explicado,
que eras filho e irmão da tua mãe.

A revolta foi a tua mentora
e foi a raiva a legal tutora
do teu medo mais secreto.

O medo que tinhas do agora
e da orfandade, muito embora,
do teu pai fosses filho e fosses também neto.

A infância, foi a tua puberdade.
Contaste nas cicatrizes a tua idade
e foi a noite o teu liceu.

Aprendeste a ler nas paredes da cidade
e perdeste para ela a virgindade,
como a tua inocência se perdeu.

Nunca havias tido identidade.
Nunca havias sentido amizade
e só querias algo que pudesses chamar de teu.

Foste de delito em delito,
entre o enrascado e o aflito
como quem busca a quimera.

Pisaste os outros como quem pisa um detrito,
e na hora de escolher, nunca foste esquisito,
que por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera.

Procuraste por algúem no teu eco.
Procuraste por alguém nas ruas e nos becos,
debaixo das pontes e em todo o lugar.

Mas o teu coração permaneceu deserto
e, se não havia ninguém por perto,
tinhas de ir mais longe procurar.

Talvez tenhas ido longe demais,
mas já o tinham ido os teus pais
e a genética não perdoa.

A solidão e a ira eram tão reais,
que tinhas de quebrar e, não aguentaste mais,
e escolheste tu outra pessoa.

Alimentaste-a e leste-lhe poemas,
ainda que te tenha ignorado apenas,
como se estivesse catatónica.

Penteaste-a e deitaste-a numa cama de penas,
aprendeste música e dedicaste-lhe eternas
baladas românticas na tua harmónica.

Ficavas acordado a vê-la dormir
e, se por acaso, calhava de ela sorrir,
choravas tu, no mais completo silêncio.

Nunca entendeste o que estavas a sentir,
ou porque tremias e temias e querias fugir.
Era uma espécie de Estocolmo, virado do avesso.

Morrias por um olhar na tua direcção,
matavas por um toque da sua mão
e davas tudo pelo som da sua voz.

Mas parecia não existir lá coração,
ou qualquer réstia de emoção
para além do olhar feroz.

Deste por ti em tal confusão,
que fizeste a ti mesmo a questão:
- Mas afinal, quem será aqui o Algoz?



Zéphyro   06-03-2018

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