segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Algures do meu tamanho

Feno e terra de ninguém,
à luz do caleidoscópio improvisado
no fundo de uma garrafa vazia!

Correm messias e profetas.
Correm desnudos e sem rumo
como correm os cavalos bravos,
fustigando a terra estéril,
anunciando o asco da demanda.

Cordas entrelaçadas, relíquias e amuletos...
... e o calor bailando,
dois palmos acima da pele do mundo,
da pele do inferno, do eterno...

Ahhh!!!
Vem cá demónio,
atreve-te a existir
e luta desta vez
com alguém do teu tamanho!

Não eu. Não nós. Não gente.
Enfrenta antes este mar apagado.
Esta enferma paisagem desterrada
de angústias e desejos perdidos,
de calafrio e devaneio sombrio.

Feno e terra seca,
como útero sem fruto
dos dias sem polpa e sem mácula
por onde a vida nos foi sugada a conta gotas.

E saltam saltimbancos e artistas esquecidos.
Saltam inexpressivos, como saltam os feriados e as crianças.
Saltam porque sim e podem escolher não cogitar...
... pois são dias como os outros e crianças... simplesmente.

Ahhh!!!
Aparece deus!
Atreve-te a dar um ar da tua graça,
como têm graça as fadas e as sereias,
para petizes desdentados e marinheiros agonizantes.

Assume as rédeas do teu esterco!
Ou então, que mais é deste lugar sem nome,
onde ninguém mora além do vazio
e do calor fajuto da demência
de um sol escondido sob escombros.

Por ora, as garrafas são janelas escancaradas
para um dia fétido e distorcido.
Os bagaços, inebriam a luz da aurora
e envidraçam as abelhas que beliscam o urze.

Por aqui, o feno continua feno.
Fúnebre e desencantado como cão sem trela,
como um orgasmo violado pelos sinos do campanário,
rechaçado de encontro ao vácuo que representa o amanhã.

Ahhh, humanidade!
Levanta-te e anda!
Renasce e prospera,
como se saísses de uma arca de outrora.

Erige novas cidades para os teus
e baila a tua fortuna ao som quebradiço
do realejo do inevitável mendigo da baixa.
Comete de novo todos os mesmos erros
e cospe mais uma vez em todas as mesmas caras,
descaradas que te fazem lembrar de ontem.

Ergue novas capitais onde nem demónios,
nem deus, nem gente, nem nada.
Novos poços sem fundo onde nem fauna,
nem flora, nem vida, nem nada.

Apenas pesadelos e céu pardacento.
Um mar azul fugidio,
sem vestígio e sem esperança,
que embala as andorinhas desgarradas
enquanto estas rumam a norte e atraiçoam o verão.



Zéphyro   11/12/2017

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