Deixa a janela aberta antes de saíres, mãe.
Gosto de ficar a ouvir o som dos vizinhos
a bater com os talheres na loiça
durante o jantar, que sempre comem juntos.
Ouço o vinho cair no fundo vazio
dos copos de pé alto, que a vizinhança é fina.
Em conjunto, todos assistem aos noticiários
e ordenam silêncio às crianças teimosas,
sem pingo de sede que beba o estado do mundo.
Apenas estórias e lenga lengas da escola.
Ao final de algum tempo,
já só os genéricos das telenovelas
e a loiça, agora mais barulhenta,
após a lavagem que a atira dentro dos armários,
tão cheios de mofo e quinquilharia.
Fecha se puderes a persiana, mãe.
Que quase sempre me esqueço dela aberta,
embalado pelo meu voyeurismo entrevado.
Por vezes acordo enregelado,
que o outono já aí está e tão húmido
que me faz crescer o fungo nos pulmões.
Quem me dera puder chegar-me á janela,
debruçar-me para a rua, como as velhas
que estendem roupa e apanham roupa
cantarolando cantigas já mortas pela rádio.
Falar pelos cotovelos, de cotovelos no parapeito,
com quem passa lá em baixo e acena
com boas novas, com jornais diários,
com peixe fresco e guarda-chuvas arranjados.
Daqui do leito onde a doença me aquietou,
só escuto as gaitadas de anúncio
que num ápice, vão já na rua de cima.
E o meu guarda-chuva, continua prostrado,
com as varetas partidas e o pano roto,
que já não me abriga há mais de ano.
Quando saíres, mãe, deixa o mundo entrar.
Estou só e recluso neste quarto doente
mas a vida continua lá fora.
Gosto de ficar a ouvir o som dos vizinhos
a bater com os talheres na loiça
durante o jantar, que sempre comem juntos.
Ouço o vinho cair no fundo vazio
dos copos de pé alto, que a vizinhança é fina.
Em conjunto, todos assistem aos noticiários
e ordenam silêncio às crianças teimosas,
sem pingo de sede que beba o estado do mundo.
Apenas estórias e lenga lengas da escola.
Ao final de algum tempo,
já só os genéricos das telenovelas
e a loiça, agora mais barulhenta,
após a lavagem que a atira dentro dos armários,
tão cheios de mofo e quinquilharia.
Fecha se puderes a persiana, mãe.
Que quase sempre me esqueço dela aberta,
embalado pelo meu voyeurismo entrevado.
Por vezes acordo enregelado,
que o outono já aí está e tão húmido
que me faz crescer o fungo nos pulmões.
Quem me dera puder chegar-me á janela,
debruçar-me para a rua, como as velhas
que estendem roupa e apanham roupa
cantarolando cantigas já mortas pela rádio.
Falar pelos cotovelos, de cotovelos no parapeito,
com quem passa lá em baixo e acena
com boas novas, com jornais diários,
com peixe fresco e guarda-chuvas arranjados.
Daqui do leito onde a doença me aquietou,
só escuto as gaitadas de anúncio
que num ápice, vão já na rua de cima.
E o meu guarda-chuva, continua prostrado,
com as varetas partidas e o pano roto,
que já não me abriga há mais de ano.
Quando saíres, mãe, deixa o mundo entrar.
Estou só e recluso neste quarto doente
mas a vida continua lá fora.
Zéphyro 13-10-2014
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