O meu pai está a dormir, a besta. Como pode dormir como uma bela adormecida sabendo que é uma besta? Não sei, mas dorme, para o lado direito da cama e a minha mãe está na cozinha a chorar ao telefone. Acho que fala com a vizinha do sexto esquerdo. O marido dela, também é uma besta acho. Pelo menos é o que dizem as alcoviteiras do prédio quando vão ao pão de manhã.
A minha mãe e a vizinha do sexto, levam muitas vezes óculos de sol quando vão ao pão... e as outas riem à socapa. São umas besta também.
O meu pai, chama-se Alfredo e está a dormir, virado para o lado direito da cama e a babar-se para o travesseiro, o porco. Hoje, quando chegou a casa, ainda vinha pouco bêbedo e a minha mãe pagou as favas porque não havia vinho em casa, nem havia bagaço em casa e um homem não anda a trabalhar o dia inteiro para chegar a casa e não ter nada para matar a sede.
Nunca soube o que o meu pai faz, a besta. Diz que trabalha mas não traz dinheiro para casa senão quando calha de ir ao bingo e ser uma noite de sorte. E mesmo o prémio, já vem desbastado pelo caminho, nas roulottes e nas tascas e nos antros que estiverem ainda abertos. Raramente muda de roupa e cheira sempre a cavalo, até quando, ao domingo, sai do banho de barba feita. Só dura até ao fim da missa. Quando chega a casa, já traz barba rija na tromba outra vez e já tresanda oura vez a bagaço porque parou para comprar pão e o jornal. Como chega abençoado, raramente bate na minha mãe antes de acabar de comer o assado.
Hoje, quando chegou das vielas onde passa o dia enfiado, trazia sede, o porco. E como não lhe chega a água da torneira, bateu na minha mãe. Eu vi tudo e até pensei ligar à minha avó... ou à polícia sei lá. Mas de que serve pedir que me acudam uma velha cheia de artroses ou um bando de homens com pistolas e cassetetes? Ainda ajudei a minha mãe, coitada, a limpar o chão da cozinha que o porco partiu louça como se amanhã não houvesse e os cacos e o sangue grudaram-se na tijoleira e ainda custa a limpar. O meu pai, a besta, quando não está ainda bêbedo até atina na pontaria e a cabeça da minha mãe sujou o chão todo e tivemos as duas que limpar enquanto o porco foi para a rua. Como quando voltou já vinha como queria e tropeçava na mobília, nem reparou em nós de joelhos na esfrega. Subiu directo para o quarto e, agora, dorme como uma bela adormecida, a besta.
O meu pai chama-se Alfredo e quando cheira a gasolina não se nota que é um bêbedo e que pedincha aos comparsas nos cafés as bebedeiras que traz para casa todos os dias. O meu pai chama-se Alfredo e acendi-lhe um fósforo em cima e, não sei se da gasolina ou do álcool que se evapora, faz uma chama linda como poucas. Ainda está virado para a direita, mas agora já não se baba, a besta.
O meu pai chama-se Alfredo, vem agora com os bombeiros numa maca. Os vizinhos todos na rua e eu e a minha mãe sorvemos o ar por uma máscara. A minha mãe diz que caiu na fuga e rachou a cabeça... coitada. Os bombeiros dizem que o quarto cheirava a gasolina e a polícia diz que quer falar comigo. Com a minha mãe não, comigo.
O meu pai, chama-se Alfredo e é uma besta, mas agora, está queimado e já não bate em mais ninguém.
A minha mãe e a vizinha do sexto, levam muitas vezes óculos de sol quando vão ao pão... e as outas riem à socapa. São umas besta também.
O meu pai, chama-se Alfredo e está a dormir, virado para o lado direito da cama e a babar-se para o travesseiro, o porco. Hoje, quando chegou a casa, ainda vinha pouco bêbedo e a minha mãe pagou as favas porque não havia vinho em casa, nem havia bagaço em casa e um homem não anda a trabalhar o dia inteiro para chegar a casa e não ter nada para matar a sede.
Nunca soube o que o meu pai faz, a besta. Diz que trabalha mas não traz dinheiro para casa senão quando calha de ir ao bingo e ser uma noite de sorte. E mesmo o prémio, já vem desbastado pelo caminho, nas roulottes e nas tascas e nos antros que estiverem ainda abertos. Raramente muda de roupa e cheira sempre a cavalo, até quando, ao domingo, sai do banho de barba feita. Só dura até ao fim da missa. Quando chega a casa, já traz barba rija na tromba outra vez e já tresanda oura vez a bagaço porque parou para comprar pão e o jornal. Como chega abençoado, raramente bate na minha mãe antes de acabar de comer o assado.
Hoje, quando chegou das vielas onde passa o dia enfiado, trazia sede, o porco. E como não lhe chega a água da torneira, bateu na minha mãe. Eu vi tudo e até pensei ligar à minha avó... ou à polícia sei lá. Mas de que serve pedir que me acudam uma velha cheia de artroses ou um bando de homens com pistolas e cassetetes? Ainda ajudei a minha mãe, coitada, a limpar o chão da cozinha que o porco partiu louça como se amanhã não houvesse e os cacos e o sangue grudaram-se na tijoleira e ainda custa a limpar. O meu pai, a besta, quando não está ainda bêbedo até atina na pontaria e a cabeça da minha mãe sujou o chão todo e tivemos as duas que limpar enquanto o porco foi para a rua. Como quando voltou já vinha como queria e tropeçava na mobília, nem reparou em nós de joelhos na esfrega. Subiu directo para o quarto e, agora, dorme como uma bela adormecida, a besta.
O meu pai chama-se Alfredo e quando cheira a gasolina não se nota que é um bêbedo e que pedincha aos comparsas nos cafés as bebedeiras que traz para casa todos os dias. O meu pai chama-se Alfredo e acendi-lhe um fósforo em cima e, não sei se da gasolina ou do álcool que se evapora, faz uma chama linda como poucas. Ainda está virado para a direita, mas agora já não se baba, a besta.
O meu pai chama-se Alfredo, vem agora com os bombeiros numa maca. Os vizinhos todos na rua e eu e a minha mãe sorvemos o ar por uma máscara. A minha mãe diz que caiu na fuga e rachou a cabeça... coitada. Os bombeiros dizem que o quarto cheirava a gasolina e a polícia diz que quer falar comigo. Com a minha mãe não, comigo.
O meu pai, chama-se Alfredo e é uma besta, mas agora, está queimado e já não bate em mais ninguém.
Zéphyro 28-02-2015
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