sábado, 28 de fevereiro de 2015

De volta a casa

A central de camionetas estava cheia de gente. Grandes e pequenos em correria e farnéis e marmitas e soldados de farda e caqui camuflado a trocar paleio e a fumar cigarros uns atrás dos outros. Quando chegou a Lisboa, ainda  havia carroças e charretes nas ruas e raramente os magalas andavam contentes.
Cinquenta anos passam num ápice e só deixam marcas no corpo, se tivermos tempo de olhar para elas. Lucília, era pouco dada a curativos e ligaduras. Tinha pouco tempo para chagas e aflições. Vender cestaria de pé na feira não deixa espaço a pieguices. Talvez inche um pouco as pernas, mas a gente habitua-se a tudo com o tempo. Menos à solidão, que quanto mais é solidão, mais se entranha nos ossos como a humidade da zona ribeirinha da capital.
Há cinquenta anos, as pessoas ainda compravam cestas e seiras de vime e ainda dava para o pão ter arte nas unhas. Há cinquenta anos, ainda havia quem tivesse os três aos quinze anos e um mar de pretendentes com macheza em todas as algibeiras. Era só escolher um e Lucília escolheu. Era só aturar um e lavar-lhe sempre a roupa e cozinhar-lhe o almoço e pô-lo numa marmita embrulhado em folha de jornal. Cozinhar-lhe o jantar e servi-lo sempre a horas, para que saia de casa a horas e chegue ao grémio a horas da jogatana habitual.
Lisboa tinha mais luz, há cinquenta anos e cheirava mais a fruta e a castanhas. Andava mais gente nas ruas, agora, só desfiles de carnaval e  o circo na cidade. Castanhas, em uma ou outra esquina e já não cheiram ao de antigamente. A feira da Praça de Espanha, agora é só chineses e indianos e quinquilharia que não dura. A feira popular já não existe e a roda gigante, chamam-lhe segunda circular. Lucília nunca se acostumou aos carros e ao barulho dos carros, muito menos ao fumo dos carros. Fez-lhe falta o cheiro ao urze e ao alecrim que sempre lhe segredavam os bons dias ao acordar, quando ainda tinha futuro na aldeia. Meteu-a a madrinha numa carroça, à boleia com o Sr. Afonso, que vendia galinhas para a cidade grande. A viagem levava três dias na altura, agora eram três horas. Pena já ter morrido o Sr. Afonso e talvez tenham morrido também as mulas da carroça.
Apalavrada com um quarto no Cais do Sodré, na casa de uma matriene, prima afastada da madrinha, Lucília viu-se sozinha com a sua inocência e corrompeu-se ao primeiro patife de bigode. Trabalhava nas docas a carregar os barcos que saiam para as colónias com abastecimento para os soldados a honrar a pátria no além mar. Emprenhou-a ainda cheirava ela a campo e chutou-a para canto mal se lhe notou barriga. Foi talvez melhor assim. Era um bruto de Trás-os-Montes com queda pela bebida e pelos quartinhos de alugar à hora, no último andar da pensão.
A menina, ao nascer, já vinha roxa, que, dizem, sufocou dentro do ventre porque a mãe em pânico fechou as pernas como aprisiona o urso o abraço dentado da armadilha. Não chegou a vê-la Lucília e foi melhor assim, que era o trombil escarrado do pai.
Há cinquenta anos, poucos homens aceitavam uma mulher usada e suja pelo sémen de outro. Ainda por cima do norte. Os que aceitavam, eram ainda mais sujos e corria-lhes nas veias o sangue ganancioso e frio da capital. Pouco dado a trabalho, o Tavares, era conhecido como o tal da vida airada. Um balelas de um pelintra sem ter onde cair morto e que mantinha quatro mulheres, espalhadas pela cidade, a quem sugava o suor do rosto, directamente dos porta-moedas de crochet. Lucília era a única, sabia-o de certeza quando tinha vinte anos. Aos trinta, não tinha tanta certeza já, nem tinha tantos dentes na boca das tareias de entretanto. Aos cinquenta, quando ele foi parar com os ossos à cadeia, por desacatos em via pública e agressão a um agente da autoridade, jurou a si mesma não mais querer nenhum homem. Eram todos feios, porcos e maus, mesmo os que eram bonitos com os seus bigodinhos aparados. Principalmente esses.
Ao companheiro que odiava... visitou-o todos os dias na cadeia. Ia e vinha na furgoneta de um vizinho, que a deixava em sete rios e a apanhava no areeiro, todos os dias às três horas da tarde. Todos os santos dias, com excepção de alguns domingos, durante cinco anos, visitou o pobre na masmorra e viu-o mingar-se cada vez mais até desaparecer para o caixão da tuberculose.
A vida é triste quando já não há quem visitar. Quando não temos ninguém nosso, mesmo que há cinquenta anos vivamos nela, nenhuma casa chega a ser nossa. Numa cidade de estranhos, nem um século chega para chamar alguém de família.
A central estava cheia, agora já não há carroças, apenas autocarros, enormes, que fazem duas ou três viagens ao dia. A de Lucília já lá vinha e já trazia gente que entrara no campo das cebolas. Hoje em dia, já ninguém leva galinhas nas camionetas, ou bacalhaus inteiros e salpicões e garrafões de moscatel de Setúbal. Agora, as pessoas têm civismo, e só carregam pequenas maletas com rodinhas e umas pastas finas, onde carregam com os dedos.
Estava feliz por poder cumprir a promessa que fizera a si mesma. Voltar à terrinha e à casinha que a madrinha, ao morrer lhe deixara. Não por apreço, que a despachou ainda ganapa por não querer carregar-lhe o peso, mas porque, de facto, não tinha mais ninguém. De qualquer forma, Lucília era a orgulhosa dona de uma casita de pedra e um pedacito de horta onde podia semear umas batatas ou assim. Aos sessenta e cinco anos, estava ainda em boa forma e não tinha medo do trabalho no campo, era uma questão de relembrar e desemperrar movimentos oclusos durante meio século. Mas quem sabe, não esquece. Não fosse este sono, que não a deixava há meses e cantava de alegria os hinos de menina nos passeios até á Caparica.
Ia sentada logo atrás do motorista a olhar-lhe para a nuca já ligeiramente calva, os motoristas agora já não usam chapéu de serviço, e pensava como seria acordar no dia seguinte, já numa cama que é só sua e sem cestas para vender, de pé, por meia dúzia de tostões. Ao seu lado, um casalinho moderno, apertava, cada um para seu lado, um monitorzinho pequeno, nas tais pastinhas finas que muitos jovens usam debaixo dos braços. Devia ser engraçada o raio da maquineta, pois em vez de ir aos amassos e beijinhos que tanto ajudam a queimar o asfalto da viagem, iam cada um com o seu sorriso parvo, como quem lê uma piada diferente e a entende à sua própria maneira. Partilha? Zero. Paixão? Ainda menos. Mas é assim ser moderno, tem o seu preço. O que vale é que tudo se paga a prestações hoje em dia, apesar dos juros de bradar aos céus.
Ao olhar para o casalinho, sentiu o sono chamar por si no embalo da estrada. Era tão suave andar de carro agora e as estradas tão macias que pareciam lençóis, daqueles de flanela, das camas quentinhas que a esperavam de volta a casa.
O rádio da camioneta ia ligado, baixinho, e passava um qualquer programa vespertino destas rádios de agora e, o motorista, descontraído ria de qualquer coisa que umas pessoas diziam. Lucília não ouvia bem, mas também já quase não ouvia, mas apreciava a companhia ainda assim.
Ao meio dia, paragem numa área de serviço e já falta pouco para Castelo Branco. Daí a Alcains é um tiro e, até à aldeia de Lucília, perdida entre dois ribeiros, com a Gardunha à altura dos olhos, meia horinha ou pouco menos. Mal parou a viatura e todos se precipitaram para fora. Quinze minutos não é muito tempo e ainda chichis havia que fazer e umas sandochas para comprar, talvez, que a fome já apertava. Foi tal a azáfama e correria, que ninguém reparou na velhinha, adormecida na cadeira por trás do motorista. Ninguém achou estranho, que a uma velhinha, não urgisse fazer chichi. Ninguém se lembrou, que as velhinhas de certa idade, urinam como mulas da mesma idade, apenas não o conseguem fazer de pé.
Ao chegar á aldeola, deviam ser umas três da tarde, já só haviam duas pessoas na camioneta e saiam as duas ali. Que bom que podia voltar mais cedo a Lisboa hoje. A vida de motorista é cansativa e rotineira e sabe bem um diazito mais folgado. O Freitas ia fazer o turno de doze horas e podia ir à central poisar a viatura mal chegasse à capital. Depois, era só o metro até casa. O velhote que ia atrás, já desce pelas escadas, agarrado ao varão lateral pendurado na porta. Agarra-se com força, não vá o mundo fugir-lhe debaixo dos pés. Só faltava ir acordar a velha, que dormia ainda no banco da primeira fila.
Sonhava com uma horta de batatas gordas, das vermelhas, a escapulir-se da terra, com meio corpo de fora. Sonhava com verdejantes folhas de couve e as belíssimas sopas que havia de fazer com elas. Sonhava com a sua casa, da qual já não se lembrava. Sonhava e dormia, tão fundo e tão sossegada pelo aconchego do lar de outrora, que ninguém mais a acordou, nem mesmo o motorista, que a abanava aos berros, com a mão no ombro enrijecido e gelado.
Merda, já não consigo chegar mais cedo hoje a casa e toca de ligar ao INEM para vir buscar a velha.
 
 

Zéphyro   28-02-2015

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