terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Debaixo do salto do teu sapato

É só teu o barulho que fazes
ao chegar a casa, ou outro qualquer sítio
onde eu esteja a esperar-te.
Identifica-te tal como a tua impressão digital,
que deixas marcada na maçaneta fria da porta,
que aqueces com a tua mão de entrada.
Por vezes, gosto de ficar a admirar-te, ao longe,
da janela virada para a rua.
Sempre tão altiva e elegante,
em perfeito equilíbrio, bem no cimo
dos teus altos sapatos pretos de fivela.
Todos diriam que és mulher poderosa!
Como adorava eu que me pisasses
com a leveza dos teus passos.
Que me subjugasses com os teus tacões
e cunhassem eles em mim toda a ousadia
que têm os caminhos que escolhes.
É só teu o teu barulho
e é só teu o teu perfume,
que fica a pairar no ar
bem depois de teres saído.
Dou por mim inebriado, entorpecido,
sem vontade sequer de ter vontade própria.
Só penso, nesses dias, em verter em mim
toda a feitiçaria do teu cheiro.
E poder levar um pouco de tentação
aos arrabaldes que frequento sem ti.
Tivesse eu coragem de ir a lado algum sozinho.
Não. Mormente, prefiro ficar por cá,
na ânsia de ouvir-te os passos decididos
a entrar na frescura do prédio de tijolo burro.
Burro como eu, que a tempo inteiro
sou só tempo que passa ao lado de mim mesmo,
indigno de ser o alvo das tuas solas.


Zéphyro   09-02-2015

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