quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Como decorar uma sala vazia

Uma sala sem nada nem ninguém,
está sempre repleta de ecos ocos
e cheiros bafientos de nudez imposta.
Algumas, pintadas recentemente,
emanam pelos ares contidos,
impessoais vapores da tinta
branca e imberbe que tinge as paredes.
Porém, sem gente nem bibelots,
nem fotos de gente a fazer de bibelot,
fica perdida algures, entre a mentira
e a completa inexistência.
Fica entalada, entre a triste solidão
e o mais amorfo e catatónico lazer.
Uma sala, vazia, sem vivências
nem noites testemunhadas de amor carnal,
é toda ela penumbra e frio tiritante.
Uma luta contra a motricidade,
através da letargia das não emoções.
Uma vigília contra o abandono,
na mais surda e inabitada das cidades.
Uma greve de fome por uma fome
impossível de enxotar para um canto esquecido.
As salas, são feitas para transbordar de memórias
e momentos bons e maus das vidas das gentes.
As salas, são construídas como santuários,
desejosas de dar guarida e abrigo
ás almas fugidias que a inundam
de círios cintilantes e incensos do oriente.
Na parede de frente para a janela,
é imperativa a ilusão de um espelho.
Sem espelho não há ego nem reflexo.
Sem ego nem reflexo, de que adianta ser sala?
Á direita do espelho, imperativa uma poltrona.
Sem poltrona não há trono nem retorno,
sem trono a que retornar, quem quer estar em casa?
Em frente à poltrona, inevitável a caixa mágica.
Sem caixa mágica, não se entretém o tempo,
sem entretenimento nem tempo,
de que serve ser espaço?


Zéphyro  25-02-2015

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