domingo, 1 de março de 2015

Ao Pato Donald, nunca o vi de calças de ganga

O que vale, é que era pequeno o escritório, nunca gostei que me apresentassem gente. Pelo que vejo daqui, é a Paula dos recursos humanos, que está aqui ao meu lado de calças pretas, tipo licra e camisa florida. Usa óculos grandes, portanto não me esqueço mais da Paula. Ao lado dela, numa secretária individual, está o Carlos. É ele que trata da contabilidade e, provavelmente, é ele que trata também da própria roupa... se fosse a mulher, com certeza não o deixava vir trabalhar de fato e gravata para um escritório de gente na casa dos trinta, no qual nem sequer tem voto na matéria. Trata dos pagamentos e pronto. Autoriza tudo o que lhe mandam autorizar e pronto. Mas ainda bem que vem de fato e que o fato lhe fica mal. Até já Carlos. Tenho de ir conhecer o resto do escritório. Dois monos que estão numa ilha de duas mesas, mais uma mocita, logo á entrada da porta, que abre a mesma a quem chega e atende os telefones quando tocam. Ainda não os ouvi desde que cheguei.
A Ana, usa uma saiazita justa, que lhe fica muito bem, realça-lhe as curvas. Eu gosto, fica bem com a camisa branca de corte moderno, meia transparente nos ombros. Dá-lhe um ar profissional, mas não demasiado formal. Os monos, grafistas na empresa, os únicos aliás, um era o Adriano, que vestia calças de sarja vermelha, vá-se lá entender, o outro era o Rui, grande como uma casa, de camisa e calças largas, claras, ao estilo de pai de santo brasileiro. Usa um brinquinho parvo na orelha direita, talvez para reforçar que ainda só tem trinta e dois anos, apesar da obesidade móbida lhe dar ares de cinquenta e dois e que também é um grande maluco e até fuma umas coisas quando sai ao fim de semana.
Só falta o chefe, o único no andar de cima, é Dr. Gustavo o nome, e usa, bastante a prpósito, um estilo todo apaneleirado de calcinha semi justa e pullover de gola em bico, com uma camisinha azul com brilho, por baixo. Tudo em pendant com o pedantismo da figura e do cabelo empastado de gel. Também registei o Dr. Gustavo, embora ache que não o vou ver muitas vezes.
E passou o primeiro dia, entre os primeiros afazeres e receber um portátil para trabalhar em qualquer parte, mesmo quando estou em casa e almoçar com os novos colegas, dos quais me lembro de todos os nomes, que são sempre simpáticos e cordiais no primeiro dia de trabalho. Nessa noite, dormi com o falso conforto de me sentir adaptado ao novo trabalho... erro crasso.
Quando entrei, na segunda feira, segundo dia de trabalho, até pensei que era engano e que tinha entrado no escritório errado. Era normal naquele corredor de escritórios num prédio de vinte andares, de escritórios. As pessoas às vezes enganam-se. Mas não, alguém me passou nas costas e me dirigiu um claro e inequivoco "bom dia Luis" e o Luis sou eu. A pessoa em causa, é uma mulher, novita, que me faz lembrar vagamente a moçoila, da semana passada, a que atendia os telefones mais silenciosos do mundo, mas é impossível ter a certeza, estando ela de calças e casaco de malha.
Quando dou por mim, reconheço o espaço, reconheço vagamente os esgares na cara das pessoas, mas todos estão diferentes. Os monos vinham os dois de ganga e casaco, um de bombazine, outro de camurça castanha, o esticadinho da contabilidade, de lencinho ao pescoço, de calças cinza com risca preta, e a rapriga dos recuros humanos, que me apresentou a toda a gente, não me lembro agora do nome, está de de vestido comprido de lã, nem sei se já a vi mais gorda. Ainda bem que não veio o chefe, o Dr. Gustavo. Oxalá ainda seja o mesmo quando aparecer aqui um dia.
Que é isto afinal?! Já não pode confiar-se nas pessoas. Não pode esperar-se que se mantenham as mesmas no dia seguinte ao último em que as vimos? Porque teimam em mudar todos os dias a camuflagem, a indumentária e até as maquilhagens e os óculos, que antes eram para quem via mal, agora são também enfeites?
Porque razão não temos todos, armários cheios da mesma toilette que escolhemos quando ingressamos no mundo? Só tínhamos de ir alterando os tamanhos com a idade seríamos imensamente mais fiáveis e nem precisávamos de bilhete de identidade. Quem é aquele que vem ali de casaco de ganga e calça de treino da adidas? Só pode ser o Nuno, ninguém mais usa aqueles trajes. Quem é que vem a conduzir aquele carro que atropelou aquela velha? Não vi bem, mas pelos óculos de tartaruga, só podia ser a dona Alzira de Canidelo. Ouvi que nunca se habituou ao carro novo.
Não são tão fiáveis e divertidos, que nos proporcionam tantos momentos de alegria, os desenhos animados, por exemplo? Olhem o Pato Donald, inconfundível no seu fato de marinheiro da cintura para cima. Tem um closet cheio deles, todos iguaizinhos. Também há o Popeye, que traja de marinheiro e até tem tatuagens de âncoras nos braços, mas esse usa calças, ao contrário do Pato, logo são impossíveis de confundir.
O Mickey? Usa aqueles calções vermelhos parvos e já está, não inventa mais. O Bart? Usa aquela roupa de puto reguila, o cabelo espetado e pronto. Ainda tem o skate, para lhe assegurar a originalidade, eu já nem pedia tanto, basta-me que tenham cuidado com as roupas que vestem.
Nem só nos desenhos animados isto se passa. Cada qual, ter a sua indumentária única e intransmissível, só facilita a vida ao mundo, inclusive entre as referências religiosas, os nossos heróis. Eles nunca mudavam de roupa. Eu, pelo menos, Nunca vi o Jesus Cristo de calças de ganga, ou de botas à metaleiro, ou a correr de sapatilha e calção de licra abichanado. Nunca vi o Dalai Lama sem ser de túnica laranja, ou amarelo torrado ou lá o que é aquilo. Se me aparecesse à frente, de farta cabeleira e de vestimenta ocidental, ia lá acreditar que escrevinhava aquelas frases todas, que leio na internet que escreveu. Aquilo são frases que sim senhor, só ao alcance de referências religiosas, como, nomeadamente, o Dalai Lama.
Mesmo os deuses Hindus, ou têm trombas, ou têm muitos braços e trombas, e muitos braços e trombas e também cornos. São um tanto ou quanto parecidos, mas para os verdadeiros conhecedores, inconfundíveis também.
E eis-me ainda no escritório. Tenho tanto trabalho que fazer e não sei a quem peça que me arranje um cabo para ligar-me à rede com o computador. Na semana passada, quando me apresentaram os meus colegas, quando ainda pensei que fossem ser os mesmos na semana seguinte, disseram-me que era o Adriano que tratava dessas coisas, o que usava calças vermelhas de sarja, vá lá entender-se porquê.
Se calhar vou é para casa, aqui já não conheço ninguém.


Zéphyro   01-03-2015

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