Em todo o lado vejo poesia,
que mania...
Vejo-a nos corpos espalhados
ao longo da encosta chamuscada
de uma montanha destroçada,
nos pedaços perdidos de fuselagem fumegante
e no laranja choque das caixas negras.
Cheiro-a no podre dos dejectos
que alicerçam os nossos lares,
sempre tão atrasados para tudo
e sem tempo para nada
e no acre dos mijos
onde nos banhamos enclausurados
na nossa própria ignorância.
Em todo o lado vejo poesia,
que maldição...
Rimo na minha cabeça
Israel com Palestina
e é um soneto novo por cada velha guerra.
É metáfora quando pais violam filhos
e quando ricos roubam pobres
e quando governantes desgovernam.
É romance puro
cada um dos gritos de dor
das almas que sofrem todos os dias
em todo o lado por onde eu ande.
Ande eu longe ou perto de mim mesmo
há sempre alguém que chora a cada esquina,
sempre alguma criança perdida para sempre
para as garras do abandono e da penúria.
Em todo o lado vejo poesia,
que chaga...
Faço odes aos amores desencontrados
na amargura da traição da carne
e aos velhos que morrem sozinhos
em aldeias do interior
e que sozinhos permanecem até que o cheiro
da decomposição chegue ao luxo da cidade.
Ou será ao lixo da cidade?
Poesia em todo o lado,
que mania...
Até nos olhos negros das meninas indianas
que não chegam a existir, apenas pertencem
e nos braços magros da fome africana,
pintalgada de moscas e de papos cheios de ar.
Sempre o raio da poesia,
que tormento...
Zéphyro 27-03-2015
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