A avó gostava de sentar-se bem ali,
naquele recanto do terraço,
debaixo do umbral da garagem.
Ainda a consigo ver claramente...
De chapéu na cabeça, que a medo
a mãe lhe põe para proteger do sol.
A avó, veste sempre bata florida
e adora passar horas a dedilhar
maçaroca fora os pequenos bagos de milho.
Pequenos como os filhos que teve, muitos.
Pequenos como aqueles filhos que perdeu
para linhas malfadadas e garrafas de vinho barato.
Ao seu lado, um imenso saco de sarapilheira
vermelho e já esburacado pelas maçarocas pontiagudas.
À sua frente, uma bacia de plástico
que se vai enchendo de grãos
e sonhos que olha no espaço vazio em frente.
Às vezes, a avó cochicha qualquer coisa
enquanto se entretém com o milho.
Uma qualquer espécie de reza
a um qualquer santo longínquo
a quem rezam todas as velhotas.
Quando a avó reza, eu gosto de dormir
ao seu lado, embalada pelo suave bichanar
da sua voz enrouquecida pelo tempo.
O colo da avó é pequeno, mas é tão generoso
que parece albergar todos sonhos,
todos os refúgios do mundo.
Quantos filhos e netos
e sobrinhos e bisnetos,
albergou aquele colo sempre tão pronto.
Nem a dureza da vida vivida,
do trabalho e do peso nas costas
lhe enrijeceu o abraço, sempre tão terno.
Oxalá a mãe fique como a avó, um dia.
E vista sempre bata florida,
por cima do luto deixado pela vida.
Oxalá a mãe aprenda as rezas certas
e permita que durma no seu colo,
eu e os filhos que hei-de ter.
Pena que já não tenha o tio o terreno,
de onde vinham as maçarocas
que enchiam de sonhos as tardes de verão.
Mas prometo vasculhar tudo
e trazer uns quantos sacos, iguaizinhos
aos de antigamente e dedilharemos juntos
para relembrar o passado e os amores que lá ficaram.
A avó, amava sempre muito a toda a gente.
Zéphyro 21-03-2015
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