sábado, 14 de março de 2015

Um esteio ainda pesa

O meu pai era um esteio
dentro da casa onde cresci.
Penduravam-se nele todas as heras,
toda a ramagem e todos os medos da vida.
Respondia ele a todas as perguntas,
rompia ele todos os silêncios
e falava mais alto que todos os outros,
mais grosso que todos nós, que adorávamos ouvi-lo.
O meu pai era um esteio, uma viga
em pedras e ferro e todos os outros materiais
duros e duráveis desta vida tão efémera.
Só o tempo o foi carcomendo em pedaços
pequenos como os de pão que atirávamos aos patos
nos domingos de manhã, quando íamos ao parque.
Só o tempo o foi vergando e dobrando,
fazendo-o abandonar-se à sorte
e ficar todo coberto da vegetação selvagem
que proliferou nele muito além da sua partida.
O meu pai, pesava como um esteio,
levei-o eu à última morada, ao ombro esquerdo.
Ainda tentei que fosse no direito,
mas o primo Alfredo podia menos que eu
e já sofria das costas na altura...
... ainda sofre hoje, acho.
Esse, nunca foi o esteio de ninguém,
a trave mestra de lar algum.
O meu pai porém até enterrado
suporta com hombridade o peso de toda a terra
que tem em cima do caixão de madeira africana.
Tratada com verniz de acabamento avermelhado
como os violinos antigos, de quando a música soava melhor.
O jazigo dele, foi o último a abater-se
no cemitério onde ocupa agora uma gaveta.
Que ironia... uma gaveta, para quem já foi um mundo.
Que tristeza... uma mera gaveta, onde os ossos
nem espaço têm para formar um corpo.
São só um monte de ossos
e em nada homenageiam o homem que já sustentaram
que sustentava toda uma família às costas.
Aquelas costas que são agora apenas
um punhado de vértebras soltas, espalhadas
entre joelhos e rádios e perónios.
O meu pai é um esteio, desmanchado pelas honras
que sempre acolheu de peito aberto.
Um esteio, como muitos outros esteios
meio cobertos pelas areias do passado,
caídos nos sulcos de uma berma qualquer.


Zéphyro   14-03-2015

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