sábado, 13 de outubro de 2018

Raízes

Sou fruto de uma noite apaixonada entre vida e morte,
da aliança temporária entre o azar e a sorte.
O resultado do embate do tudo contra o nada.
Sou a fusão do anjo com o demónio,
uma corrida renhida entre o tédio e o pandemónio.
Sou uma benção que nasceu amaldiçoada.

As minhas raízes não me prendem à terra
e nem dela me alimento como suposto.
Pertenço à paz, mas nasci para a guerra
e rio à gargalhada engolindo as lágrimas do meu rosto.

Sou o choque entre duas supernovas,
a vida eterna, vivida com os pés para a cova,
o dono de céu e do inferno que não passa do purgatório.
Sou filho do poema e da trova,
o melhor aluno da classe, que sempre reprova.
O que fala pelos cotovelos, sem dotes de oratória.

As minhas raízes crescem para cima.
Na direcção do cosmos de onde vim,
caído de um cometa, que caiu ao virar da esquina
e me fez voar alado nas asas de um querubim.

Sou fruto de um caso entre o sol e a lua,
um menino em berço de ouro, que prefere o chão da rua
e as pedras sujas da calçada ao brilho do diamante.
Nasci de trás para a frente como uma capicua,
como um rio que corre para nascer e nunca desagua
e se limita a galgar o leito para montante.

As minhas raízes não atracam em lado algum,
não sucumbem ao cansaço, nem padecem de fome.
Vagueiam em direcção ao infinito, alheias ao jejum,
desprezando o passado lá atrás e o presente que o consome.

Sou fruto do abraço entre luz e breu,
um regaço sem abraço, uma vitória sem apogeu.
A consequência da incerteza e o resultado da razão.
Sou filho das flores que falharam a primavera
e dos amores que se ficaram pela quimera,
queimados pelos raios abrasadores do sol de verão.

As minhas raízes nem miseráveis nem felizes,
estão espalhadas e pintalgadas pelo universo.
Fugiram das ruas, das brincadeiras dos petizes
em busca de todas as medalhas e de todos os seus reversos.


Zéphyro  11/10/2018

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