Longe vão os tempos dos trovadores e heróis românticos. Nos dias de hoje, ninguém tem fibra suficiente para dedicar toda uma vida de palavras a uma só musa.
Que seria feito da credibilidade de um marmanjão que passasse os dias a ver uma qualquer Leonor, a caminhar descalça para a fonte? Alguém levaria a sério as palavras de tão consternada alma, sempre de olhos fitos no mesmo horizonte?
Actualmente, o mundo é global! Uma imensa horta, de onde brotam os mais variados legumes e vegetais. Actualmente, o poeta é global! Uma vasta alma onde cabe de tudo um pouco. Até adubo para a terra nova.
Malogrado é o tempo dos sonetos e da Florbela, que passou a vida debatendo-se com um amor proibido. O maior que os homens da vida corrente, já quase sempre é filho único, sem irmãos para desejar às escondidas e demasiado afastado dos demais para encetar qualquer tabu. Abre asas e afia garras sem voar, que vive com dor e jamais ama perdidamente.
Os românticos dos tempos torpes, nada tinham senão a pena e o papel mata-borrão... isso e o que viam pela janela dos quartos alugados. O fingedor do novo século, madruga em casa própria... e dorme cedo, que amanhã é dia de trabalho e o autocarro sai sempre a horas.
Já não há penas e rosários nem orgulho lusitano. Já não há sonhos que comandem vidas, apenas pesadelos que as destroem e os fogos, já só ardem á vista de toda a gente. Sejam eles de amor ou de verão. Que saudades das bolas nas mãos da criançada… já furadas e arrumadas num recanto escuro da garagem. A petizada não sonha já e o mundo não pára de avançar em direcção a todos os abismos.
Onde está, então, o sentido do poeta actual? Onde está o âmago da questão com que se debate?
Está nas ruas, povoadas de carros que sujam! Está no governo, liderado por passos de coelho, avançando a passos de caracol! Está na música, que agora aprendemos sozinhos no conforto do nosso sofá. Longe de flautas e cordas de violino.
O poeta é a nova filosofia. O poeta é a sombra da nova dúvida e o levantar do véu para a inequívoca certeza. Poesia?! É causa social e trabalho voluntário. É uma tigela de sopa quente entre as mãos de uma mulher velha e feia, que dorme na lombada do meu épico Portugal. É um número de palhaço, longe do circo e dos balancés no alto das tendas… perto da morte e da doença infantil.
Em última instância, reinventou-se o estímulo, redesenhou-se a inspiração e clonou-se aqui e além as musas. Os trovadores apenas acarinhavam o próprio sofrimento. Os modernos cantadores abraçam as dores de todos os que passam.
Zéphyro 13-11-2014
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