quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Malhados e tresmalhados

Somos todos um rebanho!
Imenso e desgovernado
roendo relvas alienadas
no cimo de um planalto.
O pastor partiu para longe
e não lhe pomos vista em cima
desde o frio do inverno passado.
Só cá ficou o cajado, pousado no chão
sem firmeza para guiar
ou vergastar as costas daqueles que,
fogem de entre nós,
com destino a prados mais além.
Somos todos um rebanho!
Ainda que nascidos em clãs distantes,
sempre nos encontramos e marramos
nos mesmos locais verdejantes
e nas cabeças uns dos outros.
O nosso pai desistiu de nós,
cansado de barafustar
e de electrificar as cercas.
Dele, só restou o boné coçado,
abandonado na pedra fria
onde sempre se sentava.
Somos todos um manto branco!
Polvilhado, sem padrão definido,
por pontos negros e descabelados.
Já se foi a mão que nos tosquiava a pele
que já não aquece a nossa lã
e só nos querem os embaraços.
Só se quedou no chão a corda
com que nos amarravam as patas,
que sempre foi sugestivo o grupo
que nos berra á solta na pradaria.
Somos todos um rebanho
nicado sozinho nos ervados
com o dono em parte incerta.

Zéphyro  13-11-2014

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