Os Teixeiras sempre foram bons vizinhos.
Berro para cá, grito para lá,
mas qualquer família ralha
nos prédios já acesos cá da rua.
Porém, os Teixeiras, andavam sempre juntos
e até levavam o cão a passear
antes de se amanharem uns aos outros
à facada no peito e nas costas
e onde mais calhar, no meio da correria.
Numa noite da semana passada,
um bradar de dor nas carnes
irrompeu no silêncio da rotina
e interrompeu o sotaque da novela
que os Teixeiras sempre assistiam
sentados no sofá, depois de jantar.
Nessa noite sofá vazio,
que discutiram todo o telejornal
de perfumes da mãe Teixeira
e ciúmes do pai, com horas a sobrar
para planear tornar-se homem.
De amigos da mãe Teixeira
que a visitam ao domingo
carregados de loção de barba
que espalhavam no corredor.
Até o filho que está para a tropa
ou marinha ou lá o que é,
veio de fim de semana em braços
para participar na garraiada
e atestar a inutilidade do desempregado.
Os Teixeiras sempre foram boa gente.
Nada fazia prever que de ontem para hoje
enchessem o prédio de inspectores
daqueles que, antigamente,
sempre traziam um pau de giz no bolso
para qualquer eventualidade.
Os Teixeira sempre foram pessoas calmas,
fora os desabafos misturados
com os fritos do conduto
e o cheiro a cão molhado
que o feroz carrega preso nas patas,
sempre que a dona o traz do jardim.
Nada fazia adivinhar, que uma faca de peixeiro
cravada aqui e além, nas costas e no pescoço
pudesse ter aguardado escondida,
no refúgio da gaveta dos talheres.
Nunca tal se imaginou na vizinhança
que nesta manhã de sábado,
ao contrário de outra qualquer,
não cheiraria a ambientador
no portal do segundo andar.
Os tacões não entoariam na escadaria
já atrasados para o balcão da loja,
eram boa gente os Teixeiras...
Agora têm tábuas,
agora têm grades
e o filho deixou a tropa
para abraçar a silhueta da mãe
desenhada a giz no chão do alpendre.
Zéphyro 10-11-2014
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