Andava ao alto uma pastora,
pastoreando o seu rebanho
e eu desdobrado em tarefas.
Entre uma ovelha mais aos saltos
no magote da bicharada
e o arame farpado das cercas,
velho e enferrujado que, nunca ouvi,
que tivesse feito bem a alguém.
Limita e pronto. E aleija que se farta.
Andava ao largo uma barcarola,
aproveitando a bonança
e eu dividido entre marés.
De tempos a tempos encrespada,
lambendo os passeios marginais
com a raiva de um castigo
e, nos intervalos desses tempos,
lisa e convidativa como um leito,
de luxúria e lençóis de seda.
A lã dos bichos aquece nos invernos,
mas o arame pica e rasga a pele.
Espeta-se na gente e estraga-nos a roupa.
Navegar liberta a alma,
que português que é português
sabe ser feliz no mar.
Mas as ondas cansam os olhos
e, quando vem a tempestade,
tememos sempre pela vida.
Andava ao alto uma pastorinha,
que não sabia que era pastorinha,
para ter em mãos tão puras,
o encargo de um rebanho.
E eu, perdido entre peles,
quase sempre ovelha negra.
Zéphyro 07-11-2014
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