quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Une os pontos...

Um comboio apinhado,
em montes de ferro empilhado
na base daquela ravina.
Une os pontos...
Tantas vidas ceifadas,
outras tantas sentadas
em cadeiras altivas.
Une os pontos...
Um lamento de fome
na boca de quem não come
como a gente das cadeiras.
Une! Une os pontos...
Um languido vê se te avias
até ao cimo das escadarias
onde nos guardam judeus a riqueza.
É só unir os pontos...
Um quadro a óleo borratado
e o pintor já esborrachado
contra a parede da opressão.
Une os pontos..
Que vês? Ainda incompleto o desenho?
Um avião arremessado
de asas abertas num descampado
e as pessoas são carvão.
Já os uniste?
qual é então o resultado
ou não tem significado
o borrão que obténs?
Porque estão tantos parados
e os outros é só pecados
porque o perdão custa barato?
Une os pontos...
Pagas com velas a tua bula
outros lambuzam-se na sua gula
brilhantes como chão encerado.
A cabeça sem cabelo
onde enfias um gorro em pêlo
que coçar não é solução.
Tanta cabeça bem tratada
entre aquela salgalhada
que paga pela cabeleira.
Une os pontos e vais ver
que muito há ainda a fazer
se queres terminar o desenho.

Zéphyro  12-11-2014

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