sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Analepse

Vejo, mal entreabres a porta do quarto,
a tua silhuete baixa,
desenhada no vazio iluminado
do hall de entrada.
Nem estico os braços do berço
pois sei que vens pegar-me.
Estás tão bonita,
mesmo no escuro.
Tão novinha ainda
e já a braços comigo.
Lá vens tu, apressada,
mas nunca falhas.
Oito braços como um polvo
e um colo sempre tão quente.
Cheiras tão bem.
Gostava de poder dizer-to,
mas por ora, apenas penso
nas tangerinas na ponta dos teus dedos.
...
Vejo que me olhas,
enquanto entro generoso
no quarto branco derradeiro.
Vês a minha silhueta,
desenhada no meado de tarde
que ilumina o corredor das mil janelas.
Poiso a minha mão no teu peito
outrora meu pão que me fez homem.
No teu peito imenso agora intermitente
e fundo como o teu olhar no meu.
Estás tão bonita.
Consigo vê-lo através da parafernália.
Através das máscaras, dos lençóis,
das agulhas e das máquinas que apitam.
Tenho saudades porém
das tangerinas das tuas mãos
poisadas agora no colo
que já foi meu e já foi mais quente.
Já sei falar agora.
E é tudo o que faço,
sem dizer contudo,
o que há para ser dito.
...
Sinto que me olhas...
e esperas que me volte
e arranque da tua boca
uma frase que há de ser última.
Vês a minha silhueta interrompida
pela porta de molas que se fechou.
Esperas ainda, talvez uns minutos mais.
Mas sei que sabes que espero ver-te amanhã.
Eu vou ver-te amanhã.
Imagino que vires a cabeça
para o lado no travesseiro
e feches os olhos profundos,
como os movimentos do teu colo
sedento do ar que escasseia.

Zéphyro 28-11-2014

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