quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Valquíria

Os dois irmãos empunhavam as suas pistolas erectas e luzidias, enquanto, recostados um no outro, fitavam horizontes opostos.
Um, via ainda a noite, mãe de todos os amantes, e a carne nua de Valquíria, gemendo por entre sugados beijos que juntam a fome à vontade de comer. Outro, olhava já o dia, sorrindo ténue nos confins do planalto, palco de infindáveis tardes de romance e piqueniques à sombra do grande carvalho, onde sempre se espraiava Valquíria, convidativa como algodão doce nas festas populares.
O dinheiro, divide-se e reparte-se em lotes os terrenos de plantio que lhes deixou a orfandade. Valquíria não se partilha! Partilhar, só o sangue e a raiva de morte um pelo outro.
Fazia três meses, que lhes entrara, de chancas porta a dentro, a soberba, na forma da mais delicada mulher que jamais pisara toda a terra conhecida. Entrou ela e o seu inebriante perfume, que remete para a luxúria das maçãs mordidas com sofreguidão.
Após essa manhã, em que a vila olhou de esguelha para a porta chiadeira, aberta em jeito de entrada triunfal, ia já a missa a meio, nunca mais foi a mesma a vida dos endinheirados irmãos Ventura.
Aquela morena altiva, que atravessava a nave da igreja desdenhosa, mexeu no âmago dos dois de tal forma, que o destino ficou traçado. Mal cruzaram olhares, avaliaram um no outro o mesmo enamoramento instantâneo e, certamente, um deles teria de morrer, um dia.
Os dois irmãos empunhavam as suas pistolas erectas e luzidias. Quem seria o traidor? Pois se um, fugiu e desposou a bela lá para os lados de espanha e o outro lhe lia poesias e enfiava na boca uvas e dedos e a língua bem ali, no cimo daquele planalto onde a noite e o dia trocavam turnos.
Valquíria era a santa, manipulada pelos horrendos brutamontes que a passavam de mão em mão, como uma garrafa de bagaço num dia de trabalho no campo. Valquíria era a pura. Privada da sua castidade, sem sangue em lençol branco, por dois vis abutres, que lhe debicavam eriçados e cobiçosos, as tenras carnes ensolaradas.
Quem seria o traidor? Como saber, se ambos espetaram na terra conquistada a bandeira que a reclama? Em última instância, o traidor, será aquele a cair primeiro e cujo sangue enferrujará a terra seca pelo estio.
Os dois irmãos, recostados um no outro, seguram as suas pistolas que parecem murchar com o aproximar da hora e parecem menos luzidias, como se o seu brilho que se apagasse com a noite já de saída.
Quando chegou a hora, Valquíria atrás do carvalho do pecado, viu por entre os farrapos de neblina a desventura dos Ventura, ambos jazidos na terra árida do planalto. Aproximou-se a medo e viu as armas prostradas mais além, ainda fumegantes dos disparos certeiros. Nos olhos arregalados e vítreos dos seus amantes só ódio de morte e medo da morte. Uma emoção em cada olho.
Ela não. Sem sobra de temor, teve ainda tempo de sorrir ao sol uma última vez, que já se erguia a meia altura. Depois partiu, com um sorriso nos lábios de triunfo que nem o projéctil na têmpora direita, foi capaz de apagar.
 

Zéphyro  21-01-2015

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