quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Deus joga GTA

O Homem, é a sua obra. É a grandeza das empreitadas terrenas que, em derradeiro julgamento, elege o nome de um indivíduo como exequível de ocupar, em anos vindouros, a boca de analistas e historiadores.
Alguns, padecem e são lembrados ainda por gerações não contemporâneas. Seja qual for o caris da obra deixada. Como evidência, temos os exemplos de Hitler ou Gandhi, antagónicos no respeito pela vida alheia e na demanda que lhes encurtou a vida, ambos porém, enormes na marca que deixaram vincada no rosto de uma humanidade que teima em despertar.
Visto isto, tenho dado comigo a esmiuçar deus e todo o seu significado que, levado à letra, permite deduzir que está sujeito às mesmas regras que as suas marionetas de carne e osso: Deus é a sua obra!
Qual é então a obra de Deus? Bom, em primeiro apontamento, é uma obra extensa, quase ao nível de um omnipotente Nicholas Sparks. Levada a cabo ao longo de um bem mais alargado período de tempo, é certo, mas com a mesma carga emotiva e trágica, que, inevitavelmente, enjoa pela repetição. Valor seja dado ao norte americano, que, pelo menos, tem a decência de cobrar pelos seus livros, desresponsabilizando aqueles que não têm nos bolsos cheta, para gastar em cultura e outras pieguices.
Já deus, está em toda a parte e é de borla. Característica irrascível e inteligente arma de quem quer expandir horizontes para além de umas quantas tias azedas e chegar a auditórios mais auspiciosos que as adaptações hollywoodescas da propaganda.
O início, até foi bonito de assistir. Era um vê se te avias de arvorezinhas e rios e oceanos, uma amálgama de bichos e bicharocos a brotar em toda a parte. Mas o tédio apossessa-se de um artista, ora se apossessa. Quando tal, chega de benfeitorias e toca mas é a alegrar um bocadinho a coisa, polvilhando-a com malícia, vício e conspurcação, carregadas às costas pelos nossos antepassados humanoides. Aí sim, começou a diversão do deus nosso senhor, até então muito dado a causas meramente nobres.
Porque raio haveria o supremo fazedor de todas as coisas de visitar a feira popular e ficar-se só pelos enfadonhos carrinhos de choque e pelo comboio fantasma cujos fantasmas se escondem sempre atrás das mesmas esquinas? Ser supremo por ser supremo, mais vale uma boa mão carregada de bilhetes para a montanha russa ou qualquer outro carrossel que, eventualmente, vire tudo de cabeça para baixo.
Assim sendo, não se imiscuindo em demasia, é quase certo que deus se tenha, inclusivamente, associado a algumas colectividades, fomentadoras da paixão e da emoção na sociedade.
O futebol, por exemplo. É por demais óbvio que deus nutre uma muito especial simpatia pelo benfica. Não tivesse ele, só no ano passado, chamado a si o Eusébio e o Coluna. Logo estes dois, símbolos de toda uma nação de benfiquistas que, se quer ver a bola, paga bilhete como toda a gente ou, quando muito, subscreve a benfica tv. Ver de cima e sem pagar é que já é abuso, apenas compreensível no caso da águia Vitória, quando os jogos são em casa e no caso dos muitos personagens célebres que, exactamente por serem célebres, se abstêm de pagar ingresso de camarote para um espectáculo que, em suma, estão a agraciar e não a usufruir.
Mas nem só de pontapés na bola se alimenta o humor do pai de todos nós. Diz-se à boca pequena, que é um fervoroso admirador das novas tecnologias de informação, principalmente dos jogos de consola, para os quais tem todos os códigos de batota. Sabe-se que, queimou tempos e tempos a tentar descobrir sentido no "Paradise Caffe", através do seu Timex 48k. Tempo esse, só ultrapassado pelo despendido a jogar o "Street Fighter". Apenas o largou da mão quando chegou ao final do jogo com todos os lutadores... até com o Blanka que é mais lento que a justiça de certos países primeiromundistas.
Paulatinamente, o espaço à imaginação, aberto pela grave lacuna gráfica, foi abandonando os jogos e estamos em plena era da realidade virtual. Bem vale a experiência de simulação ganha no "SimCity". Só assim se compreende plenamente o nível de superioridade atingido por alguns criadores de arcádia dos dias de hoje.
Que viva o GTA! Quem quer ver deus, é numa qualquer sala de jogatana online, onde passa os dias e as noites, esquecendo-se até dos seus deveres de pai. Dizem os mais entendidos que desde Santana Lopes, ninguém passava tantas horas em salas de jogo.
Ele é fazer missões, é roubar carros, palmar carteiras, chacinar inocentes. Uma diversão pegada, enfim.
Felizmente há pontuação extra para quem atropelar velhinhos ou fizer de uma redacção de jornal um paredão de fuzilamento.

Zéphyro  28-01-2015

Sem comentários:

Enviar um comentário