domingo, 30 de dezembro de 2018

Que é feito?

Que é feito dos favos de mel
do teu sorriso de menina?
Que é feito do Bolero de Ravel
que nos teus olhos nunca desafina?


Terão ficado largados na dor,
desfiados pelos dias lestos
onde nos esquecemos do amor?


Ou terão ficado junto com os restos,
de tudo o que já teve mais sabor,
servido em trajes mais modestos?


Que é feito do açucar da tua voz
quando era trova cada palavra tua?
E que é feito entretanto de nós,
emaranhados em tanta amargura?


Terá sido o futuro
a saquear-nos o presente?
A derrubar-nos como a um muro?


Terá sido alguém em especial, ou toda a gente?
Terá sido demasiada luz, ou demasiado escuro
a fazer de nós uma estrela cadente?


Que é feito dos frutos nos teus passos
quando vinham sempre para mim?
E que é feito do apogeu de abraços
e das mil e uma noites de Aladim?


Terão sido demasiadas noites comigo?
Ou terá sido apenas a fantasia
e o fascínio pelo perigo,


a transformarem cada noite em dia,
a fazer da magia castigo
e a roubar-nos a alegria?


Mas que é feito de tudo que era doce outrora?
Será que se afogou em pranto a paixão?
Será que, como todos que amo, já foi embora
e me deixou a braços solos com a ilusão?


Que é feito da doçura?
Que é feito da ternura
que me fez querer estar aqui?


E o que é feito da candura?
E o que é feito da loucura?
E o que é feito de mim sem ti?




Zéphyro   30-12-2018

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