quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Ensaio sobre as coisas que ouço quando não falo

O silêncio não existe nem quando me calo!
A multidão fanfarrona que emprego,
dentro de mim, não me dá nunca sossego,
questionando tudo o que faço e corrigindo quando falo.

Ouço consternado de tudo um pouco,
desde debates políticos acirrados,
passando pelos génios, precocemente enterrados
até as orações de todas as religiões me deixam louco.

Escuto frases soltas sem serventia
e junto-as e reviro-as até terem sentido,
exprimo-as e exalto-as sem ser contido
até que se unam e floresçam em poesia.

E cânticos pagãos há muito esquecidos
e discussões vanguardistas sobre a morte.
E profecias, e sinestesias… até o norte
é enfiado goela abaixo dos meus ouvidos.

Gostava de poder guardar na memória
todas as piadas que me contam cá dentro
e todos pedaços de avisos agoirentos,
que cá vão passando até passarem à história.

Não tenho porém espaço suficiente,
para demagogias sobre o capitalismo
nem para as vidas tresmalhadas ao cataclismo
e tento fixar-me só no que é importante.

A paz, a luz, a arte e o amor são trigo.
Mas o refugo, o materialismo e a esperteza saloia,
juntos com o orgulho e ambição são o joio
que aparto de mim sempre que consigo.

O silêncio, é uma falácia que desconheço…
Sei ditados e dizeres, lengalengas e adágios.
Todos eles originais, que a loucura não faz plágio,
apenas vai ditando a bel prazer o mundo desde o começo.

Passeei pelos prados do éden com Eva e Adão,
lutei na guerra dos 100 anos,
e fui nómada como os ciganos
e ensinei a Maomé o Corão.

Assisti quando Abel sucumbiu aos pés de Caim,
fiz sacrifícios com Maias e Aztecas,
fui o primeiro dos judeus a caminhar até Meca
E o muro das lamentações foi inventado por mim.

Assisti em directo ao discurso de igualdade
de Martin Luther King no memorial de Chicago,
ajudei a escrever todas as obras de Saramago
e até quando caiu Pompeia eu estava na cidade.

O silêncio é uma realidade que ignoro…
Nem sei sequer se o quero para mim de tão pobre.
Talvez lá para o fim, seja tudo o que sobre,
mas para já respiro palavras por cada um dos meus poros.

Ouvi em primeira mão todos os concertos,
entoei todos os cânticos e cantei todos os hinos.
Fui cada um dos velhos e fui todos os meninos,
fui a verdura das serras, o azul dos mares e areia dos desertos.

Fui guerreiro apache e mestre samurai,
fui vero como Lúcio,
todas as pérolas de Confúcio,
o espírito santo, o filho e o nome do pai.

Que faço eu com tanta existência e tanta loucura?
Não tenho mãos para tudo o que gostava de agarrar,
nem armas que não palavras com que lutar
e só o peito desnudo me serve de armadura.

Talvez passe a falar comigo mesmo, em completo desalinho…
Ou talvez me transforme num profeta,
num orador, num sonhador ou num poeta.
Seja como for, o que tiver que ser, serei sozinho.



Zéphyro  29-11-2018

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