Quero um estômago vazio
a roncar de fome
dentro da minha barriga farta.
Quero tremer toda uma noite de frio
enquanto a miséria consome
cada caloria que me enfarta.
Quero um peito mutilado
pelo gume de uma navalha
que por sorte não me matou.
Quero um braço amputado
enrolado numa mortalha
e banhar-me em toda a dor que me causou.
Quero velar um amor perdido
para as garras de alguém melhor
que lhe deu o que eu não pude.
Quero cair por terra vencido
após duelar-me com fulgor
e desperdiçar a minha juventude.
Quero punição pelos meus erros,
na forma de uma pena de morte
ou de uma vida encarcerado.
Quero chorar entes em tristes enterros
e quedar-me sozinho entregue à minha sorte
enquanto me sinto incompleto e desamparado.
Quero ser filho da orfandade
e não ter a quem recorrer
para um abraço solidário.
Quero ser largado na sociedade
sem ter virtudes com que me defender
nem caminho que me guie ao calvário.
Quero toda a dor que alguém teve
a latejar dentro de mim como tambores
de uma antiga celebração tribal.
De outro modo, estar vivo de que serve
se nem medos nem tremores,
apenas o dia a dia, sempre mortiço e banal.
Zéphyro 13-06-2019
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