segunda-feira, 8 de junho de 2015

Os bichos que fogem do mar

Primeiro foi aquela velha nau quinhentista,
a dar à costa para amarar-se
num porto seco dos de agora.
Depois, emergiu o homem, bicho feio,
reluzente no seu fato de escafandro.
Trazendo em bolsas de cordame
todas as miudezas dos fundos do mar.
Marmotas e sardinhas,
mexilhões, ostras e ouriços,
um tritão e sete sereias.
Jaquinzinhos e caranguejos,
navalheiras, lingueirão e ouro perdido,
das menos capazes barcolas castelhanas.
Mas primeiro, a nau bela vicentina
com que galgámos mundo quando havia mundo.
Sem velas nem mastros, é certo,
mas inteira na segurança de um cais lusitano.
Atrás dela, tudo o resto que é bicheza
marginal, longínqua, corajosa e bravia.
Cobardes já há as andorinhas,
que abandonam o lar dos ninhos
pelo sol de terras mais sulistas e obliteradas.
Alinham-se e batem retirada, nos seus fatos pretos
aos primeiros sinais das chuvas
ainda mornas de outono.
Ah, mas aqueles bichos do mar,
todas aquelas criaturas com escamas,
com guelras e barbatanas,
comedoras de algas e plâncton
e homens e lulas bebé,
vêm todos ao meu encontro
nesta praia de prata ventosa
que lembra o agosto minhoto.


Zéphyro  07-06-2015

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