Sinto claramente,
quando entras na sala
e a luz de uma espécie de sol interior,
irrompe pelas janelas e ilumina
os olhos marejados de quem ouve
as palavras que escrevi para ti.
Mesmo quem nunca te conheceu,
sentiu claramente a tua presença
e o teu orgulho imenso a preencher a sala.
A abraçar-me e acariciar-me a nuca,
não cabendo em ti de tão inchada,
por teres um filho que se fez poeta.
O vestido que trazes fica-te bem,
tão brilhante como a aura de diamante,
ametistas e lapis lazulli,
que trazes pendurada no teu regaço.
Tão alvo como o salão frio,
em que finalmente se fez dia.
...
Sinto claramente, quando me olhas,
durante um sono que não me parece sono,
nem parece sonho ou pesadelo.
Olhas-me e vês-me já mais velho
do que algum dia chegaste a ser,
mas também, os anjos não têm idade...
Vieste mais uma vez, da terra do nunca
e do tudo, que pode ser o nunca
se encontrar as pessoas certas,
na pele dos arcanjos que me vão guiar.
Vieste para certificar que tudo está pronto,
a mala feita para a viagem,
os testamentos assinados, na mesinha de cabeceira,
e a alma descongestionada daquilo,
que foi a minha vida depois de teres partido, pecado.
Pena que não saibas de tudo o que fiz
e principalmente, daquilo que desfiz,
mal, um dia, nos viraste as costas.
...
Olho a porta dos fundos,
única porta que alcanço com os olhos,
ou com a parte deles que não arde,
nas chamas de todo o mal que fiz.
Olho a porta, porque sei, claramente,
como o cristal que te fez mulher um dia,
que desces já para vir visitar-me.
Não estás já acostumada ao calor abrasador,
nem ao desnível da descida, abrupta,
como uma queda anunciada,
do cimo do mais alto dos píncaros mortais.
Mas sei que vens!
Sabes que sei, que esperas ver-me hoje!
Tu vais ver-me hoje!
Oxalá chegues ainda a tempo,
pois é curto o turno do porteiro
e ouvi, que mais ninguém hoje está para chegar,
pois, entretanto, entre mortos e estilhaços
o mundo fez-se um sítio melhor.
Zéphyro 19-09-2015
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