Ainda antes da perna alçada na parede
de um portal aberto de pensão,
antes do primeiro cliente, que chega a pé,
que mora logo ao virar da esquina,
todas as putas compram pão,
numa saca de pano como todo nós.
Compram pão e fiambre cortado fino,
para o pequeno almoço do menino
e depois, saem para trabalhar.
Pegam na bolsa com os trocos,
com as borrachas, os batons e os toalhetes
e saem... para trabalhar, como todo nós.
Que culpa têm elas de amar os seus meninos?
Que culpa têm elas, de amarem bem menos
a si mesmas e aquilo que representam?
Compram pão! Sim!
Por vezes, uns pasteis sortidos ao domingo,
dia santo, de ficar em casa com as lamentações
e o menino que não veio para o lanche.
Compram pão! Sim!
E por vezes, ainda têm tempo de deixar pronta
a sopa para o almoço, que o menino trabalha perto
e talvez venha almoçar a casa.
Ainda antes do primeiro aconchego do bidé
e da primeira mirada perdida no tecto branco,
ainda antes do primeiro baloiçar afogueado,
com cheiro a bagaço matinal à mistura,
Todas as putas cuidam dos filhos!
E, as que não têm filhos, cuidam dos filhos das outras,
que ficaram já pelo caminho.
Ao encargo de uma doença venérea ou de um fígado fraco,
que não aguentou a exigência do dia a dia...
Todas elas compram pão! Pão, é respeito!
Todas elas procuram no pão, o que lhes falta,
em amor próprio e tempo para amar melhor
a todos aqueles que estão fora dos pardieiros,
para onde saiem todos os dias, menos ao domingo.
Para trabalhar, sim! Para trabalhar!
E os filhos, bom, os filhos esses,
tomam sempre o pequeno almoço da mamã,
antes de se enfiarem aperaltados,
nos seus carros pretos com motorista
e irem fazer o que quer que eles fazem, lá nos parlamentos,
lá nos tribunais e nos gabinetes dos ministérios.
Zéphyro 15-09-2015
Sem comentários:
Enviar um comentário