segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Uma harpa e um arpão

Havia um vilarejo,
onde moravam todos os velhos,
veteranos aposentados
das guerras do ultramar.
Um vilarejo largado,
á beira mar plantado,
por rasgos de valentia
e estocadas de marfim.

O ar sabe ao som da harpa,
dedilhada numa escarpa,
de costas voltadas ao mar.
E cheira a sangue podre,
de algum verme ou algum ogre,
perfurado por um arpão.

Havia um vilarejo,
com gente velha, já sem ensejo,
que gastou os dias a recordar
as desventuras do ultramar.
Um vilarejo tristonho,
onde os sonhos são medonhos,
arrebatados pelo fogo,
alimentado pelo colmo dos telhados.

A terra cheira a sangue,
apesar das veias estanques,
dos velhos secos pelas memórias.
E sabe a mofo e musgo,
impelido a crescer no refúgio,
onde deixaram as suas vitórias.

Havia um vilarejo encantado,
para outros mal afamado,
onde uma harpa soava sem fim,
tocada solene na escarpa, de costas voltadas ao mar.
Um vilarejo em pedaços,
como velhas recordações e sonhos lassos,
esventrados em Africa
pelo silvo agudo de um arpão.


Zéphyro  07-09-2015

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