segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O maior erro da minha mãe


A minha mãe, sempre foi uma vencedora! Esse, foi o seu maior erro.
Quando aos dezasseis anos, alguém lhe disse: "Estás grávida", ela mesmo se sabia uma criança ainda. Não preparada para as lides da maternidade, que buscou sempre com a sua rebeldia vitoriosa, mais típica de rapazinho rufia. Quando se soube de esperanças, não perdeu a esperança de encontrar carinho ainda, apesar de ter brevemente que o esmerar em outro ser, em outro seu.
Fugiu das responsabilidades iniciais e das noites mal dormidas? Fugiu sim! Fugiu até, de autocarro, quando, já com as águas estouradas, se viu às portas do hospital, ainda sem o seu carinho desejado. Mas não errou porém aqui.
Fugiu com medo! E, como todos os vencedores, escondeu-se do medo que sentia... e escondeu o medo que sentia, dentro de si, já tão só e cheia de medos dispares e diversos.
A minha mãe era uma vencedora! Sempre o foi! Mesmo quando, com vinte anos e uma menina recém chegada a um mundo ligeiramente mais carinhoso, lhe disseram: "Tens uma doença sem cura."
E não teve cura a doença, tanto, que foi a cura que a levou. Foi a tentativa magnânima e infrutífera da cura, que lhe foi debilitando o corpo, com que nos abraçava e se fazia abraçar, ás escondidas.
A pele, rebentou em mil impinges, o cabelo, caiu, fraco como as folhas de uma árvore morta. Os rins, mal funcionavam e nas mãos, eram quase chagas as gretas que se abriam. Mesmo nas dobras dos dedos. Dificultando a ternura e o correctivo, servindo de barreira à própria mão, para que se estenda, para dar e receber.
Os ossos, fracos e sem cálcio, a cara inchada como um mocho, o coração intermitente... nada apagaram de si o ar de vitória! Aquele ar de quem afronta o mundo. Aquele ar lampeiro e vaidoso, como uma bicicleta que adornamos, quando a sabemos menos veloz que as outras.
Por ser assim, vencedora, se fechou sozinha, a chorar, para que ninguém a visse em fraqueza, mil e uma vezes. De todas as que, outras mil e uma vezes, se viu arremessada contra a parede pelos pontos altos da doença. Que, volta e meia, saia do falso controlo letárgico em que se espraiava e estocava forte, o metro e cinquenta de corpo da minha mãe.
A minha mãe, sempre foi uma vencedora! Esse foi o seu maior erro!
Como vencedora que foi, viveu sozinha tudo que temeu a sua alma atormentada. A cada vez que teve medo de morrer, empurrou-nos, a todos, para fora de si. Como uma leoa ferida, que se afasta para sofrer. A cada vez que teve medo de nos perder, fez questão de dizer-nos como nos dispensava. Apesar de sabermos, todos nós, que não era de todo verdade.
Era uma vencedora a minha mãe e deus, estava sempre do seu lado. Rezou a deus com toda a veemência e esperança, mas, quando se viu sem opção, até partir, decidiu partir sozinha.


Zéphyro  28-29-2015

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