quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Sinto-me um asno

Sinto-me um asno ignorante,
sempre que ouço falar os velhos,
de pecuária e agricultura.
Reconheço que talvez,
não haja no mundo arte mais pura
que semear para colher
e engordar bichos para comer...
Mas faltam-me os termos e os vocábulos,
desconheço as ordenhas, palhas e estábulos
e nem saberia com a faca na mão,
que parte do porco golpear,
para respeitar o bicho, na sua partida.

Sinto-me um asno, um burro,
quando ouço conversas sobre políticas.
Devo confessar aprecio, os discursos e as sofísticas,
mas não sei distinguir esquerdas de direitas,
nem manusear foices ou apertar nós de gravata.
Não entendo as economias,
nem as finanças ou a defesa interna.
Tudo me parece uma grande lobotomia,
uma espécie de lavagem ao cérebro,
que daria mais jeito termos deixado,
lá longe na era das cavernas, na época em que tudo o que sabíamos,
era como esventrar rapidamente um porco.

Sinto-me um asno absoluto,
quando me falam de propaganda
e do marketing orientado, para a fraqueza dos pobrezinhos
que não resistem ao pecado
e acabam só com as vestes do corpo, coitadinhos
e uma maleta de recordações e produtos dentários.
Só porque sei que ainda ontem,
ainda tinham créditos bancários....
Mas a sanguessuga astuta chamada publicidade
chamou-os ao perto e falou-lhes ao ouvido.
Levou-lhes tudo, dinheiro, casa, identidade
e nem uma faca lhes deixou, muito menos um porco para matar.

Tudo o que sei, é no fundo, a poesia!
E não é apenas por ser a única,
capaz de rimar inferno com maresia
e ignorar sabiamente toda a palha que traz no bico,
essa grande ave chamada democracia.
Mas, porque sejam os homens cristãos ou ateus,
crentes agricultores ou excelsos bancários ricos,
se ele existe, somos filhos do mesmo deus
que não sabe porcos, nem créditos, nem requisitos.
E só a poesia o descreve, sem margem para duvidas,
que homem para ser sábio, precisa de um par de tomates.
Eu cá, sinto-me um asno, porque apesar de ser poeta,
raramente ando com os meus.


Zéphyro  17-09-2015

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