Vais acordar do sono estremunhado,
assustado com um murmúrio crescente.
Com um som indefinido de madeira a estalar,
de louça a mover-se nos armários
e o vento a fazer agitarem-se as persianas.
São os abutres, que se agigantam,
como sombras na noite escura
e que se fazem a ti, cobiçando a tua carne.
Vais sentir um calafrio na espinha,
um arrepio nefasto que te traz desassossego.
Não haverá mais conforto para o teu sono,
mais calor no sangue que te corre as veias
e te mantém preso ao mundo vivo.
São os abutres, que te esvoaçam em redor,
batendo languidamente as suas asas negras,
contando o tempo que te falta respirar ainda.
Vais sentir uma dor lancinante
e a carne a ser-te arrancada dos ossos.
Vais desejar estar já morto há dias,
vais suplicar para que parem a tortura
e vociferar em desespero todos os credos que ignoraste.
Mas os abutres, não irão parar de debicar-te,
de banquetear-se com o teu corpo ainda quente
e com os teus orgãos ainda vivos.
Vais esfregar os olhos sem que vejas,
imerso que estarás no breu eterno
que te acolhe na terra das sombras.
Apenas o cheiro a morte te servirá de companhia
e as gargalhadas de triunfo te servirão de consolo.
São os abutres, que se riem de ti à socapa
e dançam em redor do teu cadáver, tombado no chão do inferno.
São os abutres, que te esperam desde que nasceste.
Zéphyro 09-12-2015
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