quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ego, o pigmeu irrascível

Não sou de prostrar-me ajoelhado
e bradar aos céus por clemência e misericórdia.
Sou mais de pontapear pedras e desaforos
na direcção de todos aqueles que pecam,
os pecados que jamais ousaria pecar.

Não sou de penas ou piedades,
nem de esperanças em meias verdades,
sobre um deus que se esconde por trás
daquilo que outros escrevem em seu nome.
Sou mais de ficar arreliado,
de ficar extenuado, de tanto cuspir
naqueles que sofrem de braços cruzados,
à espera de um rasgo de genialidade alheia.

Sou só o meu ego, sem nada em volta!
Um pigmeu irrascível e encardido como os sonhos
infrutíferos de uma sociedade pálida,
sugada desde as entranhas por si mesma.
Sou só o meu ego, sem corpo nem alma.
Um pigmeu irrascível e obtuso que adora detestar
e detesta ser adorado.

Não sou de dar as mãos aos pobrezinhos,
não sou de carregar enfermos ao colo,
não sou de alimentar os famintos.
Sou mais de golpear as costas dos carrascos,
de enfiar-lhes os punhos nas ventas
e esventra-los com a mais romba das lâminas.

Não sou de orar, não sou de rezar, não sou de pedir!
Sou de desdenhar e desbravar,
de incendiar e conspurcar aquilo que os outros,
por manifesta estupidez, têm por imaculado.

Não sou carne, não sou osso.
Não sou sangue, não sou cabelo.
Sou apenas um ego, uma ideia que tenho de mim:
Um pigmeu irrascível viciado na fúria.

E ai de quem duvidar disso.



Zéphyro  02-12-2015

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