Infestaram de gorgulho o ópio do povo,
arrozais carcomidos que não alimentam,
não saciam, nem sustentam mais ninguém.
Os pobres, desvairados pela fome,
apartam o bicho feio à unhada.
Mas nada há já a fazer pela salvação,
que se resguardava nos pântanos ledos.
Semearam urze e ervas daninhas
nos nossos campos de cravinas e estrelícias.
Tingiram de fungo a cor e os aromas,
que não chegam ao nariz de mais ninguém.
Os pobres, apodrecidos pelo mofo
daquilo que já foram jardins esmeros,
sucumbem às mãos uns dos outros,
na ânsia de assim encontrar partilha.
Pintaram de negro as ondas da maresia,
berços que embalavam o sono daqueles,
a quem a sorte foge quando acordados.
Pobres coitados rodeados de insónia,
jazidos na mortalha preta
à qual antes chamávamos casa,
na qual antes tínhamos abrigo,
para a qual antes, sempre fugíamos
medrosos que eramos do escuro das ruas.
Gorgulho no ópio do povo...
Buracos apagados onde costumavam brilhar
os alvos dentes de um sorriso de petiz.
Mofo, bafio, tudo de ruim,
onde ainda ontem, só havia alegria
e a ignorância própria dos felizes,
dos leigos e desprovidos do cheiro fajuto
que agora empesta a nossa terra estéril.
Zéphyro 07-12-2015
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