quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rola a bola sem o tonto

A bola já rola no estádio
emoção, espectadores, locutores de rádio,
só o tolo do meu pai está fora.
As bancadas já cantam os hinos,
camisolas, cachecóis, pinturas na cara dos meninos,
Só o meu pai, o tolo, não tem bilhete.
Não que não goste de ver a bola,
mas nunca foi de pedir esmola
e abrigo de um banco qualquer.
Não que não saiba bem da arte,
lê o jogo nos esgares e nos golos de cada parte,
apenas se escondeu da convocatória.
A bola já saltita no relvado,
um passe, duas fintas e está feito o resultado,
só o meu pai, de tolo, não viu o jogo.
Já se fez o porto campeão de inverno,
e o futebol tão lindo, tão viril e moderno
é a paixão de todos nós.
Compra-se, vende-se, troca-se vedetas,
e enche-se de cromos as novas cadernetas
só o meu pai não faz parte da colecção.
Não que tenha saído de circulação,
ou tenha ido para as Arábias, para a China ou Irão.
Apenas tem lares por que zelar
e filhos famintos para alimentar
que a mãe chega mais tarde à quarta feira.
A bola já rola com aparato,
os taxistas, apenas ouvem o relato
roendo as unhas até ao coto.
As equipas já festejam as suas vitórias
ouvem-se os velhos, falar de velhas glórias,
apenas o meu pai continua tonto.


Zéphyro  10-12-2014

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