quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Bueiros, valetas e outros depósitos de entulho

Ninguém nos ensina o caminho, é certo,
que cavamos à pazada
o nosso próprio trilho.
No tempo da ilha dos amores,
voltávamos heróis
e escreviam epopeias em nosso nome.
Agora, quando temos ímpeto de sair
voltamos como anónimos, só.
Ou então, voltamos directo
para a valeta que esburacamos,
antes de sair, num monte alentejano.
No tempo das Índias e das sedas,
eram magnânimos os nossos senhores
e indulgentes os nossos discípulos.
Hoje, no tempo dos bueiros e sarjetas,
os senhores são reclusos
e têm apenas motoristas,
reclusos também em breve,
que a justiça não é cega,
mas tem miopia quanto baste.
Ninguém nos ensina a vida, é certo,
que bem somos sabedores
do percurso e do destino,
invariavelmente junto ás folhas secas
e despojos levados pelas chuvas
e pelos carros de passagem.

Zéphyro  04-12-2014

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