O tempo é um seixo,
preso nas borrachas entrelaçadas
das rodas de um carro velho.
Que nos livre cristo da hora de ponta
que não desponta, não ata, nem desata.
Que nos salvem os santinhos dos regressos,
sem progressos a olho desnudo,
em marcha lenta até ao leito.
O tempo é um godo marginal,
embalado pelas ondas
que rebentam na costa,
quando rebentam na costa as ondas.
Fora isso, é só um godo,
à margem de movimentos,
saboreando sais de areia.
Que nos livre neptuno
das borrascas e bonanças
que ora impelem, ora impedem
o tempo de se emancipar.
Que nos livre iemanjá,
dos mares sem pescado,
abandonados ao deus de ará.
O tempo é uma pedra roliça
e rolante embargada por uma enxurrada.
Um naco de lodo que desliza
entre lodos, em direcção ao lodaçal.
Que nos livre a atmosfera
da mão lampeira do adiamento.
Que nos livre cronos
do abraço de pilar jónico
com que nos ampara o desespero,
desta espera desbaratada.
O tempo é um seixo entre seixos,
perdido nos escombros da tempestade.
Um seixo igual aos seixos
que não são tempo,
são só vãs realidades,
perdidas no areal.
Zéphyro 15-12-2014
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