sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Dez açoites em pele de alabastro

Escanteada na sala dos castigos
aguardas por mim, vexada
pelo teu erro e pela nudez.
Olhos fixos no soalho
e só aspiras a vergasta
que te há de corrigir.
Serão dez os açoites
a tingir a tua pele de alabastro.
Só se ouve o ar entrar em ti
e o peso dos meus passos,
firmes na tua direcção.
Estado de sítio
e a minha sombra na parede
agigantando-se à tua,
iluminada pelos candelabros acesos.
Ajoelhada de mãos sobre o colo,
ficas à espera do silêncio rasgado
pelo assobio agudo da chibata.
Serão dez os açoites
a marcar o alabastro do teu couro.
Braço erguido, olhos caídos
e a sibila, em antecipação
à linha encarnada no teu lombo.
Braço caído, olhos chorosos
e toda a força do teu peito
a impedir que implores piedade.
Um. Conto eu, repetes tu.
Serão dez os açoites
com que te brindarei a tez imaculada.
Dois. Conto eu e tu a tinir
que adoro ver-te chorar.
A tua dor remexe-me as entranhas
e causa sensações estranhas
a maior delas é o tesão.
Três, conto eu e tu mordes o lábio.
Adoras a dor que te inflijo
e os estados que atinjo
quando sou o teu carrasco.
Serão dez os açoites
a desaguar ferozes no alabastro
escarlate da tua pele de pecadora.
Faltam sete, será que aguentas?
Desce brusco o braço, com mestria
e ressalta o fundo das tuas costas.
Quatro, cinco, seis, sete, num murmúrio
de cólera carnal e dentes cerrados.
Quatro, cinco, seis, sete entre lágrimas
e o laivo róseo desenha obeliscos
na epiderme das tuas falhas.
Faltam três, serão dez os açoites
deste correctivo que te brinda o corpo.
Ainda estás comigo?
Oito, nove e dez, só de raspão
que já trémula tenho a mão
que te põe no teu lugar.
oito, nove, dez, contas com paixão
e prometes errar outra vez.

Zéphyro  12-12-2014

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